Revista inglesa afirma que ministros do STF viram as costas para a democracia

A revista britânica The Economist publicou nesta quinta-feira (10) um artigo duro sobre o Supremo Tribunal Federal. Sob o título “When the defenders of democracy turn their backs on it instead” (“Quando os defensores da democracia viram as costas para ela”), a publicação afirma que o tribunal que impediu um golpe após as eleições de 2022 agora está no centro de um escândalo de corrupção em expansão e pode minar a confiança dos brasileiros na própria democracia.
O texto lembra que, diante da tentativa de Jair Bolsonaro de reverter a derrota de 2022, o STF atuou com firmeza. Em setembro de 2025, o ex-presidente foi condenado a 27 anos de prisão. A corte enfrentou ameaças, inclusive de Donald Trump, e grande parte da sociedade comemorou a preservação da jovem democracia brasileira.

O tom muda no presente. Segundo a revista, os ministros que antes eram vistos como guardiões das instituições agora representam um risco às eleições presidenciais de 2026. O motivo é um “escândalo de corrupção feio e em constante expansão” ligado ao caso do Banco Master e a supostas relações próximas entre o ministro Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, descrito como o maior fraudador do país.

A Economist aponta que Moraes já havia tomado decisões questionáveis no inquérito das fake news e no processo contra Bolsonaro, mas que a sociedade as tolerou diante da ameaça maior. Agora o ministro volta ao centro das críticas. Quando as conexões com Vorcaro vieram à tona, o presidente do STF, Edson Fachin, sugeriu um código de ética com declaração de rendimentos externos. Moraes ridicularizou a proposta.

A crise interna se agravou em 3 de setembro, quando Moraes pediu a investigação do ministro André Mendonça, relator do caso Banco Master, por abuso de autoridade e motivação política, depois que Mendonça autorizou a divulgação de mensagens entre Vorcaro e Moraes. A revista reconhece que Mendonça também tem um histórico problemático — em 2020, como ministro da Justiça de Bolsonaro, supervisionou um dossiê contra adversários —, mas considera as manobras de Moraes para se proteger ainda mais graves.

O diagnóstico da publicação é pessimista. A disfunção no Judiciário fortalece aliados de Bolsonaro no Congresso, que prometem impeachment de ministros após as eleições e anistia ao ex-presidente. Equívocos processuais e tentativas de autoproteção podem até justificar o encerramento da investigação do Banco Master, beneficiando dezenas de políticos com vínculos com Vorcaro — entre eles Flávio Bolsonaro, principal nome da direita para 2026. Mensagens de áudio vazadas em maio desmentiram a afirmação do senador de que nunca havia conhecido o banqueiro.

“A maior perdedora seria a democracia brasileira”, escreve a revista. Os brasileiros já estão cansados dos ciclos de corrupção que atingem a classe política. Costumavam confiar no STF, que mandou dezenas de políticos para a prisão. Essa confiança agora se desgasta. A tragédia do Brasil, conclui o texto, é que a corrupção no coração das instituições pode minar a fé na democracia mais do que Jair Bolsonaro jamais conseguiu.

O artigo, publicado na seção “The Americas” e datado de 10 de setembro de 2026, com dateline no Rio de Janeiro, reforça uma mudança de narrativa da própria Economist. Há um ano, a revista havia destacado o Brasil como exemplo de maturidade democrática em contraste com os Estados Unidos. Agora, o foco recai sobre o risco de as instituições que salvaram o sistema se tornarem elas próprias a maior ameaça a ele.

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