Hoje, 18 de maio, é o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. A data, instituída em memória de Araceli Cabrera Crespo – uma criança de 8 anos de idade que foi morta após ser sequestrada e brutalmente violentada em 18 de maio de 1973, no Espírito Santo – é fundamental para mobilizar a sociedade na proteção da infância.
A história da menina marcou o Brasil, há 53 anos, e o caso nunca teve um desfecho, mas foi emblemático e exerceu papel fundamental para levantar o alerta: crianças e adolescentes precisam ser protegidos. Em diferentes proporções e contextos, milhares de crianças e adolescentes em todo o planeta passam ou já passaram por algum tipo de violência sexual, seja pela exposição a conteúdo pornográfico, seja como vítimas de crimes hediondos, que precisam ser punidos com todo o rigor.
Entendendo a importância da pauta e da proteção da infância e juventude, o Jornal de Brasília e o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) firmaram parceria para ampliar o debate e fortalecer o combate à violência sexual infantojuvenil.
A realidade no Distrito Federal preocupa. Ao longo de 2025, o MPDFT ofereceu 967 denúncias por crimes contra a dignidade sexual e maus-tratos a vítimas menores de 18 anos – mais da metade (53,1%) de todos os 1.820 casos registrados no ano passado. Os crimes mais recorrentes contra crianças e adolescentes foram estupro de vulnerável, maus-tratos, importunação sexual e estupro, segundo os dados do órgão.
O levantamento do MPDFT indica ainda que, ao longo de 2025, pelo menos uma criança ou pré-adolescente (até os 14 anos) foi vítima de estupro por dia na capital. O crime tipificado como estupro de vulnerável registrou 584 denúncias no ano passado.
As maiores concentrações de denúncias relacionadas a crimes contra a dignidade sexual de crianças e adolescentes foram registradas em Ceilândia, com 107 casos; Brasília, com 55; Samambaia, com 48; Planaltina, com 40; Sobradinho, com 35; e Taguatinga, com 33. Outro dado relevante, segundo o MPDFT, é a predominância de vítimas do sexo feminino.
Segundo a Subsecretaria de Vigilância à Saúde do DF, no terceiro quadrimestre de 2025, mais da metade das notificações de violência sexual (54,40%) atingiram meninas menores de 18 anos. Os dados obtidos no Informativo Epidemiológico – Violência Interpessoal e Autoprovocada, produzido pela Subsecretaria de Vigilância à Saúde, indicam que o cenário persiste em 2026. No primeiro trimestre deste ano, aproximadamente 40% dos registros tiveram meninas menores de 19 anos como vítimas.
Nos períodos analisados de 2025, as adolescentes lideram o número de notificações, superando significativamente os demais grupos. Entre setembro e dezembro do ano passado, foram registradas 201 notificações entre meninas de 10 a 19 anos, frente a 13 casos de vítimas do sexo masculino. Nos quatrimestres anteriores, os registros também foram elevados, com 167 e 164 notificações entre meninas, contra 16 e 24 do sexo oposto, respectivamente.
O MPDFT também destacou o número de inquéritos policiais. Em 2025, foram instaurados 3.671 inquéritos policiais e termos circunstanciados relacionados a crimes sexuais e maus-tratos no DF. Desse total, 1.707 casos (46,5%) envolviam crianças e adolescentes. Entre os registros mais frequentes contra vítimas menores de 18 anos estão maus-tratos (793), estupro de vulnerável (691), importunação sexual (97) e estupro (63).
Com o propósito de ampliar ainda mais a mobilização da sociedade contra a violência sexual, as promotoras de Justiça do MPDFT Liz Elainne Mendes e Luisa de Marillac participaram do Podcast do Jornal de Brasília.
Máxima atenção aos sinais para encerrar a violência
Um questionamento frequente sobre o tema diz respeito aos sinais que crianças e adolescentes podem apresentar em casos de violência sexual. Para a promotora Liz Mendes, coordenadora do Núcleo de Enfrentamento à Violência e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes (Nevesca) do MPDFT, essa pergunta é difícil de ser respondida uma vez que cada pessoa pode apresentar sintomas de violência por diversos contextos e motivos.
“É muito importante que as pessoas que convivem com a criança e com o adolescente conheçam como eles são. Algo está errado quando essa criança ou adolescente deixa de ter prazer nas atividades corriqueiras em que ela se sentia muito bem, como passeios com a família, visitas à casa de amigos e conhecidos, idas à escola, ou quando muda repentinamente de grupos de amizade”, exemplificou.
Outros sinais comuns, conforme pontuou a promotora, são crises repentinas de choro; alterações do sono, com insônia ou pesadelos constantes; regressão de fases, como voltar a fazer xixi na cama; agressividade ao outro sem motivo aparente; e, sobretudo no caso de adolescentes, automutilações. Para Liz, além de estar atento a sinais como esses, o diálogo também é essencial para interromper possíveis violências sofridas pelos menores.
“É conversar, é acolher, é estar atento às necessidades que eles [crianças e adolescentes] têm no mundo, na vida particular. Uma característica da violência à dignidade sexual de crianças e adolescentes é o código de silêncio. Infelizmente as violências de cunho sexual, a maioria delas acontece no âmbito doméstico. Ou dentro da família ou com relação aos agregados, como vizinhos, tios, família mais ampliada, amigos. Pessoas que de alguma forma têm acesso à criança ou ao adolescente no seu ambiente natural. Essas violências sexuais costumeiramente estão envolvidas em códigos de silêncio. A criança fica constrangida em quebrar esse código de silêncio. E por quê? Porque houve uma violência, um constrangimento, uma ameaça por trás disso”, explicou Liz.
A promotora Luisa de Marillac, também coordenadora do Nevesca, explicou que a violência sexual pode mudar também a percepção da vítima sobre o mundo. “Quando a criança não se sente mais protegida, muitas vezes como fruto dessa violência, ela pode entender o mundo como um mundo violento, muito mais quando essa violência vem de pessoas que são mais próximas. Ela perde a confiança, perde o interesse. Então, é muito importante que todos os atores que convivem com crianças e adolescentes estejam atentos e estejam abertos ao diálogo”, ressaltou.
Para Luisa, o combate à exploração e ao abuso sexual infantojuvenil é um tema que precisa cada vez mais estar no centro do debate, por isso a mobilização da sociedade é essencial. “Sabe aquela coisa de que tudo o que não é dito é jogado para debaixo do tapete e aquilo vai crescendo? Com a violência contra crianças e adolescentes também é assim: quanto mais a gente fala, quanto mais a gente toca no assunto, mais a gente facilita também a vida das crianças e dos adolescentes para que eles possam entender melhor se estão sendo ou não vítimas de algum tipo de violência”, finalizou a promotora.
Reflexo do cenário nacional
De acordo com o MPDFT, os dados locais refletem o cenário nacional. Segundo o 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública (2025), a violência contra crianças e adolescentes tem crescido no país, especialmente os casos de maus-tratos, abandono e violência sexual. Em 2024, foram registradas 2.356 mortes violentas de pessoas com até 17 anos, na contramão da tendência de queda da violência letal na população em geral.
Neste ano, a expectativa é de que as denúncias desse tipo de violência continuem a crescer. Conforme dados do Disque 100, do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDH), foram registradas mais de 32,7 mil ocorrências de violação sexual contra crianças e adolescentes entre janeiro e abril de 2026. O número representa um aumento de 49,48% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Entretanto, o aumento de denúncias não está necessariamente relacionado ao aumento de casos, conforme explicou ao JBr a coordenadora-geral de enfrentamento ao trabalho infantil do MDH, Célia Carvalho Nahas. Os dados sobre violência contra crianças e adolescentes, segundo ela, são sempre muito alarmantes, especialmente quando se referem à violência sexual. “Os dados não reduzem. A gente não tem, nos últimos anos, nenhum indicativo de redução da informação de denúncia de violência contra crianças e adolescentes, muito menos de redução dos índices de violência sexual”, apontou.
“Isso [aumento dos registros de casos] tem a ver também com a incidência das campanhas de sensibilização para que as pessoas denunciem os casos. A gente também precisa entender esse volume de casos não só como uma piora na ocorrência, mas sim como uma melhora no cenário de sensibilização das pessoas. O próprio Dia 18 de maio vem com a intenção de sensibilizar a população, mobilizar para reconhecer a violência contra a criança e o adolescente e denunciar quando suspeitar da ocorrência dessa violência”, destacou Célia.
Denuncie!
Denunciar é essencial para interromper ciclos de violência. Casos podem ser comunicados de forma anônima pelo Disque 100, pelos Conselhos Tutelares, pela Polícia Civil (197) e pela PMDF (190). No Ministério Público do DF, as denúncias podem ser feitas pela Ouvidoria (127), pelo site institucional, pelo Portal da Criança e do Adolescente ou pelo e-mail pdij@mpdft.mp.br.
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