O terceiro convidado a ser sabatinado pelo JBr Eleições, ontem, foi o ex-governador José Roberto Arruda (PSD). O ex-chefe do Executivo local falou sobre possível indeferimento da sua candidatura, de projetos para a mobilidade, saúde, segurança e sobre temas sensíveis como os desdobramentos da Operação Caixa de Pandora que o acompanham até os dias de hoje.
Candidato, o senhor tem dito que o DF está quebrado. Como pretende realizar obras no início de um futuro governo, caso eleito?
No início do meu governo anterior, eu também tive que fazer um corte de gestão. Cortei pessoal, custeio e aluguéis. Hoje, o atual governo paga R$ 1 bilhão por ano de aluguel nesses prédios chiques. Quando ainda não tinha o Centro Administrativo, eu governei de um quartel em Taguatinga, o Buritinga, para economizar. Aí sobrou dinheiro para investimento. É a mesma coisa que eu vou fazer. Hoje existem 37 secretarias; vou reduzir para 18. Hoje são 27 mil cargos em comissão; vou reduzir para 12 mil. Vou entregar esses prédios caros todos e mudar o governo para o Centro Administrativo. A minha prioridade é ter investimento. E, para ter investimento, preciso diminuir o gasto com custeio. Agora, depois que saí nesses 16 anos, Brasília avançou muito pouco e regrediu em algumas áreas. A saúde, por exemplo, é um. As obras começam e não terminam. Estão demorando mais para fazer o viaduto do Sudoeste do que Juscelino demorou para construir Brasília inteira.
O senhor tem prometido corredores e investimentos no transporte, mas como garantirá a qualidade desses serviços?
Desculpa a falta de modéstia, mas tudo o que tem de metrô em Brasília fui eu quem fiz. A primeira metade, em apenas dois anos e três meses, quando eu era secretário de obras do Roriz: levei o metrô do Plano Piloto, Guará, Águas Claras, construí em Águas Claras, Taguatinga e Samambaia. Dois anos e três meses. Quando voltei como governador, em mais 15 meses, peguei o metrô no Centro de Taguatinga, levei até Ceilândia, fiz oito novas estações e comprei 48 novos trens. Só que, de lá para cá, não deram conta de fazer nem um metro a mais de metrô. Eu quero voltar para fazer transporte sobre trilhos, que é o que estrutura a vida da cidade: expandir em Ceilândia, levar ao Por do Sol, Sol Nascente e Águas Lindas; fazer o metrô do Gama e Santa Maria saindo para o Entorno (Novo Gama, Cidade Ocidental e Jardim Ingá); fazer o VLT do Aeroporto para a W3, que eu tinha deixado com obras iniciadas e conseguiram parar; e fazer a quarta ponte ali na L4 para subir à direita para Jardim Botânico, Mangueiral e São Sebastião, e à esquerda para Itapoã, Paranoá, Sobradinho e Planaltina.
Com qual recurso?
Com esses R$ 16 bilhões que roubaram do BRB, dava para fazer tudo isso e ainda sobrava um trocado. É só ter um governo austero e realizador. Existe hoje a parceria público-privada. Posso atrair recursos do setor privado para fazer a infraestrutura e explorar por 30 anos. Por que não?
O senhor implantará a tarifa zero? Revisará os contratos com as empresas de ônibus?
No meu governo, o subsídio era zero reais. Hoje o governo está colocando R$ 2 bilhões por ano no bolso dos empresários de ônibus. Uma vergonha. Sobre a tarifa zero: tenho muito cuidado com isso. Primeiro, não quero colocar 6 mil cobradores na rua; quem faz tarifa zero demite os cobradores, e eu não vou fazer isso. Segundo, perde o controle do sistema. É bom que a tarifa seja mais baixa, mas a custo zero perde-se o controle. Terceiro, os empresários de hoje são remunerados por quilômetro rodado, não por passageiro transportado. Então, se o ônibus sai vazio do Gama e chega à Rodoviária, ele ganha do mesmo jeito. Isso é ridículo, é uma negociata vergonhosa que se faz em Brasília.
E o senhor vê melhorias na malha viária com as recentes intervenções?
As grandes intervenções foram feitas no meu governo. A EPTG, por exemplo, que ligou Taguatinga ao Plano Piloto em apenas dois anos; a duplicação da BR-020 até Formosa; a duplicação da Estrutural. Ou seja, imagine se hoje não houvesse as obras que fiz — a EPTG com sete pistas de cada lado, a Estrutural e a BR-020 duplicadas — o trânsito seria um desastre. Eu quero voltar para fazer a Interbairros: aquela linha de transmissão que sai de Samambaia, passa por Ceilândia, Taguatinga Sul, divide Águas Claras, Areal, Guará e Plano Piloto. Vamos aterrá-la e construir ali sete pistas de cada lado. O anel rodoviário já está projetado e quero fazer a primeira etapa.
Qual é a primeira etapa?
Do Trevo do Chifrudo, na BR-040, até a BR-020, em Planaltina lá em cima. Porque os caminhões de carga que vêm do Sul para o Nordeste e vice-versa hoje passam pelo centro de Brasília, pela Eixão.
A Rodoviária do Plano Piloto foi privatizada. O senhor manterá a privatização?
Eu vou rever. Mas é um contrato que preciso respeitar porque tem termos legais. Sou contra a cobrança de estacionamento no centro de Brasília. Não há metrô para todas as cidades nem ônibus de qualidade. Haveria outras formas de remunerar a empresa para manter a rodoviária limpa — e ela está limpa —, mas sem cobrar estacionamento.
O senhor tentou ser candidato anteriormente, mas foi impugnado. Acredita que vai até o final?
O que se diz na cidade hoje é que amanhã (hoje) o TRE vai aceitar a impugnação da minha candidatura. Esta pode ser minha última entrevista com você. Não sei quais forças políticas estão agindo sobre isso, mas é incrível: estou há 16 anos fora. Se eu tivesse matado alguém, já estaria livre. É brincadeira, estão de gozação. Os 12 anos da lei já estão vencidos, aí querem inventar que não houve conexão entre a primeira e a segunda decisão para tentar me tirar no tapetão. Mas, se o TRE me impugnar — se essa previsão do vice da Celina Leão (PP), o advogado Gustavo Rocha (Republicanos), se confirmar —, no mesmo dia recorro ao TSE. Tenho convicção da minha candidatura; eu a registrei de acordo com a lei.
Fato é que a imagem que ficou foi a do senhor saindo do governo preso.
Eu já provei na Justiça. Aquele monte de deputados colocando dinheiro na meia, na cueca, na mochila aconteceu dois anos antes de eu ser governador. Não foi no meu governo. Está no laudo da Polícia Federal: foi em 2004. Eu era deputado federal, não tinha nada a ver com aquilo. E os R$ 20 mil que recebi — a imagem é péssima, eu reconheço — estavam registrados no TRE. Não havia nada escondido. Tanto provei isso que o próprio Ministério Público pediu a nulidade da prova. Sou um homem do bem; posso olhar para a minha família com a consciência tranquila. No Brasil é assim: primeiro você é condenado na mídia, depois tem que apresentar a defesa na Justiça.
Quem estava por trás disso, então?
As empresas de informática que queriam continuar ganhando dinheiro desonestamente do governo e das quais cortei tudo. Se eu os tivesse agradado, nada teria acontecido. Não tenho rabo preso, por isso ponho a cara a tapa. Agora, já pensou se, em vez de ter recebido R$ 20 mil declarados no TRE, eu tivesse assaltado o banco e tirado R$ 16 bilhões? Já pensou se eu tivesse feito como a Celina, que comprou uma vaca de R$ 500 mil em sociedade com empresário de ônibus que recebe subsídio do governo? Para mim seria prisão perpétua, mas para eles não dá em nada. Por que não julgam a Operação Drácon, que acusa a Celina de desviar R$ 30 milhões da saúde para emendas parlamentares? Chega a época da eleição, estou bem nas pesquisas e tiram um processo de baixo da gaveta. É medo do voto; jogam muito sujo.
Teme que essa seja a última imagem que fique do senhor?
Não sei se no dia do meu enterro ainda vão transmitir isso. Pode ser. Mas o que importa não é isso. Minha adversária está usando essa imagem no programa eleitoral e em todo lugar — uma baixaria danada. Eu estou aqui apresentando propostas para o futuro de Brasília.
O senhor não tem futuras pretensões políticas?
Vamos deixar esse baixo-astral de lado. Pare de ser pessimista. Eu vou disputar a eleição e vou ganhar. Se perder na instância local, ganho no TSE. Tenho couro grosso; não estou jogando a toalha nem existe plano B. Vou para cima. Tenho amor por esta cidade e quero resgatá-la. Brasília está um caos. Se estivesse bem, eu não precisava voltar. Ando pela cidade sem a quantidade de seguranças que ela usa, ouço as pessoas, e elas estão sofrendo muito. É um desastre: 3.500 moradores em situação de rua praticando assaltos à luz do dia. O governo da Celina é um desgoverno e uma máquina pública a serviço da campanha dela — uma vergonha. Brasília está no fundo do poço. Tenho absoluta convicção de que registrei minha candidatura dentro da lei; mesmo que haja influências do governo local na Justiça do DF, no plano federal isso não existe.
Como garantir, caso eleito, que o BRB não será liquidado?
Não tendo todas as informações internas, seria leviano falar detalhadamente. No debate, pedi à Celina que publique o balanço. O que ela está escondendo? Como é que um banco público metido em uma encrenca desse tamanho não publica o balanço, em desacordo com a lei? É uma vergonha. A sensação que tenho é que ela está empurrando com a barriga para deixar o BRB quebrar depois da eleição. Tentou empréstimo e fundo garantidor, sem sucesso. As medidas assertivas ela não toma: fechar 19 agências fora de Brasília, acabar com patrocínio de Fórmula 1 e time de futebol, e trazer os R$ 15 bilhões por ano do Fundo Constitucional do Centro-Oeste (hoje no Banco do Brasil) para o BRB, a exemplo do que o Banco do Nordeste faz. Desculpe a franqueza: ela não sabe governar; é o poder pelo poder. Se o banco quebrar, será o maior prejuízo da história de Brasília.
O senhor critica os patrocínios externos do BRB. Acredita que esse dinheiro pode ser revertido para o DF?
Isso depende da administração do banco. No meu governo havia patrocínio, mas era pequeno e exclusivo para os times de Brasília. O que tem a ver o Banco Regional de Brasília injetar R$ 50 ou 60 milhões em um time de fora?
Quais são as suas propostas para a segurança?
O crime organizado está entrando porque estamos sendo lenientes. Fizeram aquele Centro POP de acolhimento de moradores de rua no centro da cidade e virou uma fábrica de crimes. Eu entrei lá: tem boca de fumo dentro do Centro POP. Encontrei morador de rua do lado de fora que me disse ter medo de entrar para tomar banho por causa do tráfico. Eu acabo com esse Centro POP no primeiro dia e retiro as barracas espalhadas pela cidade.
Mesmo diante das orientações do Ministério Público?
Que o Ministério Público faça a parte dele. Como governador, quem manda sou eu. Por isso eles não gostam de mim: porque não baixo a cabeça. Se na época de Juscelino Kubistchek houvesse o IBAMA e o Ministério Público de hoje, Brasília não teria sido construída. Para a população de rua, vamos dar passagem a quem quiser voltar ao estado de origem, albergues para quem quiser ir, e retirar da rua os traficantes e viciados, levando-os para centros de recuperação com humanidade e firmeza.
Qual política de proteção à mulher e ao feminicídio pretende adotar?
Essa é uma febre no Brasil inteiro, uma triste consequência do machismo cultural. Mas há algo positivo acontecendo: antigamente essas agressões ocorriam e não viravam notícia. Hoje a sociedade acordou. Algumas cidades adotam medidas interessantes: quando há agressão e o casal se reconcilia, a polícia passa na casa a cada 15 dias para verificar se está tudo bem. Isso deixa o agressor receoso. Outra medida é o monitoramento de pessoas com histórico de violência. Além disso, precisamos abrir novas casas de abrigo e oferecer capacitação profissional para que as mulheres garantam independência financeira do agressor.
O senhor é favorável à instalação de câmeras corporais nos agentes de segurança?
Tenho dúvidas sobre isso. São Paulo reduziu os índices de letalidade e de ocorrências contra policiais, mas, se for implementar em Brasília, tem que ser dialogando com as forças policiais. A polícia de Brasília é ótima; o que falta é contingente e tecnologia. Não se pode engessar o policial no combate ao crime. Se for adotar algo do tipo, será mediante negociação correta com as corporações.
Em sua gestão havia uma fila de 15 mil pacientes. Como fará melhor agora?
O último hospital construído em Brasília foi no meu governo, o de Santa Maria. Passaram-se 16 anos e não fizeram mais nada. Quero construir os hospitais do Recanto das Emas, do Sol Nascente, de São Sebastião, o Hospital do Câncer de Barretos (trazendo uma unidade para cá) e um hospital específico para cirurgias eletivas. No meu governo, as pessoas chegavam ao posto de saúde e encontravam pediatra, ginecologista e clínico geral; hoje não há médicos. Aquele número de 15 mil referia-se ao acumulado de quatro anos, e todos os que não haviam sido operados até o fim do mandato foram atendidos logo em seguida.
O senhor concorda com o modelo adotado no Iges-DF?
Antes, com a Fundação Hospitalar, funcionava muito melhor. O Iges-DF é um instrumento que precisa passar por mudança de gestão: quem deve dirigir um órgão desses são servidores públicos da saúde. Não se pode colocar advogados ou delegados na presidência. O instituto sofre com vazamentos, desvio de recursos e falta de objetividade. É preciso colocar pessoas especializadas que conheçam a saúde pública para gerir o sistema de forma decente.
O senhor vê alguma similaridade entre o Iges-DF e a Real Sociedade Espanhola?
O Hospital de Santa Maria, na minha época, funcionava muito bem. A Sociedade Espanhola prestou um bom serviço: as pessoas eram atendidas e as consultas eram marcadas por telefone com hora certa, sem filas. O boi só engorda com o olho do dono: eu fiscalizava, visitava os hospitais e não ficava viajando de férias. Faltam gestão e presença do governante.
O DF apresentou o pior desempenhos do país no IDEB. O que pode ser feito para recuperar a educação?
Em 2009, Brasília ocupava o primeiro lugar no IDEB, com a melhor educação pública do Brasil. Em 16 anos, conseguiram colocar o DF em último lugar. O que fazer? O que já fiz no passado: retomar as escolas de tempo integral e valorizar o plano de carreira dos professores. No meu primeiro dia de governo, farei uma posse coletiva para os 3.300 professores concursados. Além disso, precisamos reformular o PDAF para dar autonomia aos diretores escolares e recriar o programa de bolsas universitárias para estudantes atuarem no contraturno escolar.
O senhor realizaria concursos públicos em quais áreas?
Em todas as áreas: carreiras de apoio (PPGG), novos concursos para a educação e para a saúde. Os concursados da saúde serão chamados e ajustaremos os salários dos médicos para valores compatíveis com o mercado, garantindo a fixação desses profissionais nos hospitais públicos.



