Antes de comandar franquias de uma das maiores redes de alimentação do mundo, Laura Oliveira já procurava maneiras de transformar trabalho em independência. Ainda jovem, em Cuiabá (MT), começou a costurar e vender produtos em feiras de artesanato. Na escola e, mais tarde, na faculdade, fazia trabalhos acadêmicos para complementar a renda. Décadas depois, aquela necessidade de encontrar caminhos para ganhar dinheiro deu lugar a uma trajetória empresarial que tem como principal pilar a operação de franquias do McDonald’s no Centro-Oeste.
Hoje CEO e fundadora do Grupo Levvo, Laura acumula mais de 26 anos como franqueada da rede. A relação com a marca atravessou boa parte de sua vida profissional e acompanhou também sua consolidação em Brasília. Aos 53 anos, ela contabiliza cerca de quatro décadas de trabalho e diz que a maior parcela de sua rotina continua direcionada à operação dos restaurantes.
A história empresarial, porém, começou muito antes de chegar ao tamanho atual. Laura conta que cresceu em uma família na qual o orçamento limitado fazia com que alguns desejos precisassem esperar. Foi justamente daí, segundo ela, que surgiu uma inquietação que carregaria para os negócios. “Eu costumo dizer aos meus filhos que você tem que ser curioso e tem que ser sonhador, mas também tem que trabalhar e realizar”, afirma. Na juventude, a primeira resposta prática foi a costura. Depois vieram trabalhos ligados ao turismo e outras atividades que ajudavam a gerar renda.

O caminho acabaria levando Laura ao setor de alimentação e ao sistema de franquias. Se, no início, empreender significava encontrar formas de conquistar autonomia financeira, a experiência à frente do McDonald’s exigiu outra dimensão: gestão de pessoas, padronização, treinamento, planejamento financeiro e capacidade de tomar decisões em um negócio no qual o franqueado administra a própria empresa, mas precisa seguir processos e diretrizes estabelecidos pela marca.
É justamente essa disciplina que Laura coloca no centro de sua maneira de administrar. Ela se define como “cartesiana”, sistemática e técnica, características que, segundo a empresária, influenciam inclusive a decisão de recuar quando percebe que determinado cenário exige cautela.
“Se eu vejo a oportunidade, eu prefiro dar dois, três passos para trás e depois dar alguns para frente ou ficar ali mesmo. Mas eu sou cartesiana e eu consigo enxergar muito longe”, diz. Em um dos períodos de maior expansão de seus negócios, Laura chegou a ter 912 colaboradores. Após a pandemia, decidiu vender parte dos restaurantes.
Franquia como centro da operação
A dedicação passa também pelo treinamento e pelo planejamento dos próximos passos da operação. Para Laura, administrar uma franquia de grande porte exige envolvimento constante, mesmo depois de décadas de experiência. “Eu sou extremamente envolvida com a franquia McDonald’s, o treinamento do McDonald’s”, reforça.
Essa relação já ultrapassa a dimensão puramente profissional. Quando completou 50 anos, Laura também celebrava 25 anos de dedicação à franquia. Foi nesse período que decidiu registrar a trajetória no livro “Como tirar champanhe de pedregulho”, publicado em português e inglês. Na obra, reúne dificuldades, frustrações e conquistas vividas durante a construção da carreira empresarial, incluindo o caminho percorrido até conseguir a franquia que se tornaria o principal negócio de sua vida.
A formação acompanhou o crescimento da operação. Graduada em Administração de Empresas pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Laura cursou MBAs em Administração Financeira e Mercado de Capitais e em Estratégia Empresarial pela Fundação Getulio Vargas (FGV), além de formação em negociação e liderança em Harvard.
Para ela, a atualização constante é parte da própria atividade de empreender. A empresária associa a experiência adquirida na operação cotidiana à necessidade de estudar, observar mudanças de comportamento e identificar oportunidades antes que elas se tornem evidentes.

Negócio que cresceu com Brasília
A capital federal ocupa um espaço particular nessa trajetória. Laura vive há mais de três décadas em Brasília e relaciona parte significativa da vida profissional ao desenvolvimento da cidade. Em 2027, segundo as contas da própria empresária, completará 31 anos na capital. “Tenho muito orgulho de dizer que eu faço parte, pagando meus impostos, transformando vidas, trazendo dignidade”, afirma.
A gestão de pessoas também se tornou uma das marcas que ela procura imprimir na operação. Laura afirma buscar profissionais pela capacidade de entrega e diz ter construído ao longo dos anos uma postura de identificação e desenvolvimento de talentos. O Grupo Levvo registra cinco reconhecimentos em primeiro lugar no Great Place to Work (GPTW), segundo o material apresentado pela empresa.
“Minha felicidade maior é saber a alegria dos meus colaboradores. Para mim, isso é o que mais importa. O reconhecimento é importante, mas o melhor é saber como estão a alegria e o bem-estar das minhas pessoas”, diz.
Essa preocupação acabou transbordando para iniciativas sociais mantidas paralelamente à atividade empresarial. Laura desenvolve projetos de capacitação e geração de renda, especialmente para mulheres, mas ressalta que essas frentes são conciliadas com o compromisso assumido como franqueada.
O percurso dialoga com uma transformação mais ampla do empreendedorismo feminino brasileiro. Levantamento do Sebrae elaborado a partir da Pnad Contínua mostra que o número de mulheres donas de negócios cresceu 27% em dez anos, passando de 8,2 milhões em 2015 para 10,4 milhões em dezembro de 2025, maior patamar da série histórica.
Os avanços, entretanto, ainda convivem com desigualdades. Apesar de representarem 51,8% da população em idade ativa, as mulheres correspondem a 34,3% dos donos de negócios do país. A taxa de empreendedorismo feminina é de 11,5%, ante 23,6% entre os homens.
Laura reconhece que barreiras culturais e financeiras permanecem, embora avalie que o cenário tenha avançado. “Ainda é muito difícil, é um grande desafio também”, afirma. Para ela, iniciativas de crédito e redes de apoio têm ajudado a abrir espaço, mas mudanças culturais exigem trabalho contínuo.
A próxima geração
Depois de mais de duas décadas à frente da franquia, o próximo desafio começa a ganhar contornos familiares. Laura já pensa em preparar os filhos para uma possível sucessão. “Estou esperando meus filhos terem um pouquinho mais de idade para que eu possa passar para a segunda geração a franquia do McDonald’s”, conta. Atualmente, Valentina está perto de completar 15 anos e Enzo, 13. Segundo a empresária, os dois cresceram acompanhando de perto sua relação com a rede.
“Eles, desde que nasceram, já participam, vivem, respiram McDonald’s. Então, eles já têm toda uma experiência de vivência”, diz. Para Laura, a aproximação faz com que uma eventual entrada dos filhos no negócio possa acontecer de maneira natural.
É nessa passagem entre gerações que a empresária parece enxergar o próximo capítulo de uma história que começou muito antes dos restaurantes, quando uma jovem em Cuiabá procurava maneiras de transformar habilidade e trabalho em renda. Se naquela época empreender era uma forma de alcançar os próprios sonhos, agora a palavra ganhou outro significado.
Depois de mais de 26 anos como franqueada, Laura começa a pensar mais em quem poderá levá-la adiante. O negócio que marcou sua trajetória profissional passa, assim, a ocupar também o lugar que ela mais repete ao falar sobre o futuro: o de legado.



