Entre a rua e o acolhimento

Há três dias sem dormir, Thais Gonçalves da Silva, de 37 anos, carregava no rosto o cansaço de quem encontra pouco espaço para descansar com segurança. Há mais de 20 anos entre idas e vindas das ruas, ela convive com a dependência química e com uma rotina marcada por rupturas familiares e sucessivas tentativas de sair dessa condição. “É muito difícil”, resume.

A história de Thais dá rosto a um problema que desafia o Distrito Federal há anos. Em 2022, o primeiro Censo Distrital da População em Situação de Rua identificou 2.938 pessoas nas ruas, em serviços de acolhimento e comunidades terapêuticas. Em janeiro de 2025, o Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal (IPEDF) voltou às 35 regiões administrativas para uma segunda contagem, criada justamente para atualizar o retrato dessa população e orientar as políticas públicas. O material, no entanto, apresenta a metodologia da pesquisa e não informa o resultado numérico final do levantamento de 2025.

Mais do que contar quantas pessoas estão nas ruas, o próprio estudo reconhece que o problema é atravessado por diferentes vulnerabilidades. Perda de emprego, rompimento de vínculos familiares, abandono, redução da autonomia e problemas relacionados ao álcool e outras drogas podem se acumular até levar alguém a essa condição. Para o IPEDF, essas trajetórias não podem ser explicadas somente por decisões individuais, porque também carregam fatores sociais e econômicos.

É nesse cenário que o Governo do Distrito Federal tenta colocar de pé uma nova política de acolhimento. A proposta é ambiciosa: não apenas retirar alguém da rua por uma noite, mas criar condições para que não precise voltar a ela. A experiência de Thais, no entanto, mostra o tamanho da distância que ainda precisa ser percorrida entre o desenho de uma política pública e a realidade de quem dorme, quando consegue dormir, nas ruas da capital.

Thais conhece esse movimento. Natural da Bahia, veio a capital em busca de oportunidade com a família, conta que perdeu o pai ainda jovem, conviveu com a dependência química dentro de casa com a mãe, e passou diferentes períodos nas ruas. Ela afirma ter familiares e uma casa em que poder voltar, mas diz que o consumo de drogas a leva novamente para esse ambiente. “Eu tenho família, eu tenho uma casa mas eu sempre volto pra cá”, relata.

A rua, entretanto, acrescenta novas camadas de vulnerabilidade às que já existiam antes dela. O IPEDF destaca que a invisibilidade social pode dificultar o acesso a saúde, educação e moradia e ampliar situações de discriminação. Ao mesmo tempo, o estudo chama atenção para um aspecto frequentemente ignorado: quem vive nas ruas também constrói ali vínculos, relações de apoio e formas próprias de sobrevivência.

Esse ponto ajuda a explicar por que uma vaga disponível não significa, automaticamente, uma pessoa disposta a aceitá-la.

Thais, por exemplo, demonstra resistência ao acolhimento institucional e relata medo em razão de experiências que diz terem ocorrido com pessoas próximas. Quando questionada sobre a presença do poder público no último mês, também afirma não perceber melhora no atendimento. A crítica mais dura é dirigida às ações realizadas em locais onde pessoas em situação de rua montam barracas ou mantêm seus pertences.

“Ele só vem tirar e leva só o que nós não tem”, afirma. Segundo Thais, roupas e objetos acabam levados durante essas intervenções.

O depoimento é a percepção de uma pessoa entrevistada e não permite concluir que todas as abordagens ocorram dessa forma. Mas coloca diante do governo uma questão central: como conciliar intervenções no espaço urbano com uma política que agora se apresenta oficialmente como humanizada?

Uma nova tentativa

Em 17 de julho, o Distrito Federal sancionou a Lei nº 7.923/2026, que instituiu a Política Distrital de Acolhimento Humanizado e Atenção Integral à População em Situação de Rua. O texto tenta ampliar a resposta do Estado justamente para além do atendimento emergencial.

A legislação estabelece como princípios a dignidade, o respeito à autonomia, a não discriminação e o atendimento individualizado. Entre as diretrizes estão a busca por soluções de moradia, inclusão produtiva e articulação entre assistência social e saúde. A norma também prevê acesso aos serviços públicos mesmo quando a pessoa não possui documento de identificação ou comprovante de residência.

A tarefa é dividida entre diferentes áreas do próprio governo. Desenvolvimento social, saúde, habitação, trabalho e renda, educação, segurança pública, políticas para mulheres, família e juventude estão entre os setores previstos na estrutura de atuação.

No caso do uso abusivo de álcool e outras drogas, realidade relatada por Thais, a lei permite ainda a estruturação de um programa integrado de atenção à saúde mental, com atendimento multiprofissional e plano terapêutico individualizado. A internação involuntária fica restrita a situações excepcionais de risco iminente à vida da pessoa ou de terceiros e deve ser indicada por profissional médico.

Governo diz que mudanças começaram

Procurada pelo Jornal de Brasília, a Secretaria de Desenvolvimento Social (Sedes-DF) afirma que a implementação já está em andamento. Segundo a pasta, o Decreto nº 49.089/2026 regulamentou a nova legislação e definiu um fluxo assistencial para o chamado Modelo de Cuidado Humanizado Integrado, estabelecendo também as responsabilidades dos órgãos envolvidos.

A secretaria informou ainda que pretende ampliar de 150 para 186 o número de vagas do Serviço de Acolhimento Institucional para Adultos e Famílias do Areal (Saiafa). O Centro Pop de Brasília deverá ser transferido para um novo endereço na região central do Plano Piloto, com ampliação e qualificação da estrutura. Outra iniciativa citada é o MonitoraDF, que, de acordo com a pasta, já cadastrou cerca de 600 pessoas para identificar demandas e melhorar o acompanhamento.

A rede da Sedes conta atualmente com 1.291 vagas de acolhimento institucional destinadas a pessoas em situação de vulnerabilidade e em situação de rua. Segundo a secretaria, cerca de 900 pessoas em situação de rua estão acolhidas nessas unidades.

Há ainda 400 vagas diárias de pernoite nos hotéis sociais de Brasília e Taguatinga. Os dois Centros Pop realizam juntos cerca de 1,6 mil atendimentos por mês, enquanto o Serviço Especializado em Abordagem Social possui 26 equipes e contabiliza aproximadamente 3 mil abordagens mensais.

A estrutura mostra que o atendimento existe e vem sendo ampliado. O desafio está na etapa seguinte: fazer com que ele não seja apenas uma resposta para aquela noite, mas parte de um processo capaz de reconstruir autonomia.

Depois do acolhimento

A própria lei coloca essa preocupação no centro da política. As ações de reintegração devem envolver qualificação profissional, atendimento psicossocial continuado, reconstrução de vínculos familiares e sociais e encaminhamento para programas de moradia.

Segundo a Sedes, esse acompanhamento já é realizado. A pasta afirma que pessoas acolhidas são encaminhadas para benefícios e serviços e podem chegar a políticas de habitação e qualificação profissional. Nos casos em que existe família ou rede de apoio em outro estado, o governo também pode custear o transporte de retorno, desde que haja manifestação voluntária da pessoa atendida.

No trabalho, uma das alternativas apresentadas pelo governo é o RenovaDF. Até 10% das vagas de cada ciclo podem ser destinadas a públicos encaminhados por órgãos e instituições parceiras, incluindo pessoas em situação de rua. Outra norma reserva pelo menos 2% das vagas de trabalho em contratos de serviços e obras públicas do DF para esse grupo.

Um mês após a sanção da nova lei, ainda seria precoce medir seus efeitos. Há uma rede em funcionamento, ampliação de vagas anunciada e uma tentativa de integrar setores que lidam com diferentes partes do problema. Ao mesmo tempo, a experiência de quem continua na rua lembra que a existência de um serviço não significa, por si só, que ele consiga alcançar todas as pessoas que precisa alcançar.

Thais mostra isso sem usar o vocabulário das políticas públicas. Há mais de duas décadas, sua vida passa por família, droga, rua, tentativa de retorno e rua novamente.

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