Embaixador trocou conflito na Palestina pelo consulado do Brasil em Lisboa

O diplomata brasileiro Alessandro Candeas, de 60 anos, passou de coordenador de uma operação de evacuação de cerca de 100 brasileiros da Faixa de Gaza, em plena guerra entre Israel e os terroristas do Hamas iniciada a 7 de outubro de 2023, a cônsul-geral do Brasil em Lisboa desde 2025. A experiência adquirida na embaixada em Ramallah (2020-2024) tem servido, segundo ele, para gerir uma comunidade que, segundo dados da AIMA, ronda os 500 mil brasileiros em Portugal — número que pode facilmente duplicar quando se contabilizam os que possuem passaporte português ou europeu.

Como descreve o jornalista Álvaro Filho, na reportagem publicada na plataforma Mensagem de Lisboa, Candeas afirma que “o que vi e vivi na Palestina me fez aprender a dar o sentido exato à palavra guerra”. Essa bagagem foi útil na organização da maior zona eleitoral brasileira do mundo, em Lisboa, com quase 80 mil eleitores nas presidenciais brasileiras de outubro de 2026 — um salto de 74% face a 2022. A votação na Cidade Universitária decorreu sem incidentes, num contraste deliberado com a “guerra” que o cônsul deixou para trás.

Em Lisboa, os conflitos são outros: a onda de xenofobia na Europa e o aumento de bullying contra crianças brasileiras nas escolas. Em resposta, o consulado lançou em 2026 o projeto Amigos e Amigas do Brasil, que premiou trabalhos de redação, desenho e vídeo de estudantes de Lisboa, Leiria, Torres Vedras e Belmonte. A diplomacia cultural inclui também saraus literários e o próprio livro de Candeas, A Carta de Pero Vaz de Caminha e o seu Espelho, publicado em outubro — um exercício que o cônsul chama de “pequeno manifesto anti-eurocêntrico”.

A reportagem de Álvaro Filho na Mensagem de Lisboa recorda ainda a operação de retirada de Gaza, documentada no livro governamental Voltando em Paz e nas memórias do próprio diplomata, Peregrinações & Guerra. Um episódio particularmente marcado foi o da última brasileira a sair: uma grávida de nove meses que percorreu parte do trajeto numa carrocinha puxada por um burro e deu à luz na noite de Natal, batizando o filho de Maomé. Mesmo em Lisboa, Candeas mantém um celular antigo com a aplicação de alertas de bombardeamento para acompanhar a filha, que optou por permanecer em Tel Aviv.

Nascido no Recife em 1966, formado em Direito e diplomata pelo Instituto Rio Branco, Candeas (com passagens por Brasília, Paris e Buenos Aires), gere agora o que descreve como “um país dentro de outro”. O Consulado-Geral no Chiado tem sido usado pelo Itamaraty como laboratório de novos serviços (passaportes emitidos na Casa da Moeda no Brasil, identidade, CPF, carteira de motorista e título de eleitor no estrangeiro). Em 2026 criou o Espaço da Mulher Brasileira (EMub), com apoio contra a violência doméstica e promoção de empreendedorismo.

Entre o chapéu de vaqueiro nordestino no cabide do escritório e a vista do terraço reaberto do palacete do Chiado, o cônsul interessa-se também pela história comum luso-brasileira — como o percurso dos judeus sefarditas de Portugal até ao Recife e, depois, à fundação de Nova Iorque. Como nota Álvaro Filho na Mensagem de Lisboa, Candeas brinca que, “do ponto de vista histórico, acabou por ser a colônia brasileira mais bem-sucedida”.

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