Das páginas dos jornais à história do Gama: a trajetória de José Bernardo Pereira, o Zé da Banca

Os jornais contam histórias todos os dias. Passam pelas mãos de repórteres, fotógrafos, editores e diagramadores. Mas, antes de chegarem às casas, às padarias e aos cafés, também passam pelas mãos de personagens que ajudaram a manter viva a circulação da notícia, os jornaleiros. No Gama, um desses personagens atende pelo nome de José Bernardo Pereira, conhecido há décadas como Zé da Banca.

No último sábado (6), a Banca Santa Cruz, ponto tradicional da região, virou cenário de festa. Familiares, amigos, clientes e moradores se reuniram para comemorar os 74 anos de José Bernardo. Teve troca de figurinhas, algodão-doce, pipoca, pula-pula e crianças circulando pelo espaço que, para muitos, sempre foi mais do que um comércio. Era aniversário do Zé, mas também celebração de uma história que se funde com a memória do Gama.

Há mais de cinco décadas, ele acompanha as transformações da cidade, da imprensa impressa e da própria vida. Natural do Nordeste, José Bernardo deixou a terra natal aos 19 anos em busca de oportunidades. Primeiro seguiu para o Rio de Janeiro, onde trabalhou como porteiro em Copacabana. Aos 22 anos, chegou a Brasília e se instalou no Gama, onde iniciou uma rotina marcada pelo trabalho.

Durante o dia, atuava como porteiro na 305 Sul. À noite, trabalhava como vigilante. Foi nesse período que a venda de jornais entrou em sua vida e, pouco a pouco, deixou de ser apenas uma atividade complementar para se tornar profissão, sustento e legado.

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Foto: Isabele Mendes/ Jornal de Brasília

José passou a vender exemplares nas ruas e, depois, consolidou a Banca Santa Cruz como um dos pontos mais conhecidos da região. Em uma época em que o jornal impresso era aguardado logo nas primeiras horas da manhã, chegou a coordenar cerca de 50 meninos que vendiam exemplares para ele pelas ruas do Gama.

Em um domingo, bateu a marca de mais de mil jornais vendidos,  feito que lhe rendeu o reconhecimento como um dos maiores vendedores do jornal na época, em Brasília. O Jornal de Brasília esteve presente desde o início dessa caminhada. Zé vendia o periódico tanto na banca quanto nas ruas e chegou a comercializar mais de 200 exemplares por dia. 

“Quero agradecer ao Jornal de Brasília por mais de 50 anos de parceria. Eu sempre vendi o Jornal de Brasília, sempre fui muito bem atendido e ainda continuo sendo”, afirmou Zé.

Mas a trajetória de José Bernardo nunca se resumiu aos números. Ele teve o primeiro casamento com Cícera Miguel Pereira, com quem teve os três filhos mais velhos: Eduardo, Luana e José Henrique. Anos depois, ao lado da atual esposa, Lenice Marinho Pereira, com quem está casado há 34 anos, ampliou a família com a chegada de Ana Carolina e Felipe.

Enquanto construía a banca, construía também o futuro dos filhos. As madrugadas começavam cedo, por volta das 4h30 ou 5h, com a organização dos jornais, a separação das revistas e a preparação da distribuição. O trabalho atravessava fins de semana, feriados e datas comemorativas.

“Tudo hoje foi através do jornal, da banca de jornal e revista. Foi assim que ele criou os filhos, deu educação para todos e fez a família crescer”, conta Lenice. Para ela, o marido sempre teve visão de futuro. Quando o mercado dos impressos começou a mudar, Zé passou a introduzir materiais escolares e outros serviços na banca.

Para os filhos, a Banca Santa Cruz nunca foi apenas o local de trabalho do pai. Era uma extensão de casa. Luana lembra que cresceu vendo o pai construir relações com a comunidade. “Ser filha do Zé da Banca é muito gratificante. Desde cedo ele ensinou a gente a superar as dificuldades. Meu pai sempre foi um homem muito trabalhador, digno e honesto”, afirma.

Ela também recorda que, no período em que a venda de jornais nas ruas era intensa, muitas famílias procuravam Zé em busca de oportunidade para os filhos. “As pessoas chegavam pedindo para ele empregar os meninos. Hoje, muita gente volta aqui com família formada e diz que trabalhou para o Zé da Banca. Isso mostra uma história de esperança e de ajuda a muitas famílias”, relata.

O primogênito Eduardo começou a acompanhar o pai ainda criança. Aos 9 anos, ia com ele às distribuidoras buscar revistas e jornais. “Desde pequeno, ele me ensinou a trabalhar. Eu só tenho a agradecer. Sempre digo: pai, obrigado por ter me feito o homem que sou hoje”, afirma.

José Henrique também guarda lembranças das madrugadas de domingo. Ele conta que o dia começava por volta das 5h, com os jornais ainda sendo encadernados. Depois, vinha a rota pelas padarias e pelos prédios. “Hoje eu dou risada lembrando. A gente interfonava cedo para vender jornal e nem todo mundo gostava. Mas o aprendizado foi muito bom. A base foi feita pelo meu pai”, diz. Morador da Península de Maraú, no sul da Bahia, ele veio ao DF especialmente para prestigiar o aniversário do pai. “A palavra é obrigado. Obrigado por tudo. Só gratidão.”

Ana Carolina, uma das filhas mais novas, lembra que a rotina da banca moldou sua infância e seu caráter. “A gente não tinha feriado, não tinha férias. Enquanto muitos colegas viajavam, eu ficava com meu pai trabalhando”, recorda. Ela conta que, muitas vezes, queria sair para almoçar aos domingos, mas ouvia do pai que não poderia deixar os clientes sem jornal. “Ele dizia: ‘eles precisam do jornal’. Isso fez a gente entender a importância do trabalho.”

Uma das imagens mais fortes que guarda da infância é a de si mesma sentada sobre uma pilha de jornais, de vestido marrom e branco, com o pai ao lado. Em outra lembrança, no Dia dos Pais da escola, foi fantasiada de jornaleira. “Tinha criança vestida de médico, de dentista, e eu fui de blusa xadrez, calça jeans e rabo de cavalo. Eu dizia com orgulho: estou vestida do meu pai, ele é jornaleiro.”

Felipe, o caçula, também associa a banca à leitura e aos encontros de família. “Ter um pai jornaleiro foi algo muito bacana na minha infância. Desde cedo, a gente teve contato com jornais, revistas e leitura. Isso trouxe muito aprendizado”, afirma. Para ele, o evento de sábado reforçou uma tradição familiar e comunitária. “A troca de figurinhas virou uma tradição da nossa família e de muitas famílias daqui também.”

Ao longo dos anos, clientes viraram amigos. Crianças que passavam pela banca cresceram, casaram e hoje levam os próprios filhos ao mesmo balcão. Muitos chamam Zé de “vô”, mesmo sem qualquer parentesco. Para os netos, a admiração vem do exemplo. Melissa Lara, de 12 anos, diz que o avô ensinou que nada é fácil e que é preciso trabalhar desde cedo. Maria Clara, de 11, destaca o companheirismo. “Ele conta a história dele de um jeito que a gente leva para o coração”, diz.

Amora Pereira e João Renato, ambos de 8 anos, resumem o avô como uma pessoa amorosa. Já Eduardo, de 16 anos, define Zé como dedicado, inteligente e trabalhador. Rudá Nascimento, de 11, que mora na Bahia, lembra que o avô é uma pessoa justa e caridosa. “Ele ajuda as pessoas e faz a alegria de todos”, afirma.

O policial militar aposentado Roberto Souza, amigo da família há mais de duas décadas, conheceu primeiro a fama do comerciante e depois o homem por trás dela. “Uma coisa é ouvir falar do Zé da Banca. Outra é conviver com ele. É uma pessoa amiga, acolhedora, muito ligada à família e à comunidade”, afirma. Roberto lembra que comprava o material escolar dos filhos na banca e, a partir dali, construiu uma relação de amizade com toda a família.

Com a chegada da internet e, mais tarde, da pandemia, os hábitos de consumo mudaram. As vendas de jornais diminuíram, a distribuição deixou de acontecer como antes e a banca precisou se reinventar. Vieram os materiais escolares, os serviços variados e novos produtos. Ainda assim, a essência permaneceu a mesma.

Hoje, entre cadernos, revistas, jornais, figurinhas e histórias, José Bernardo continua ocupando o mesmo espaço simbólico que conquistou há quase meio século: o de referência para a comunidade.

Pai de cinco filhos, avô de seis netos e responsável por uma das bancas mais tradicionais do Gama há 47 anos, Zé da Banca vê sua trajetória se misturar à da cidade. Durante décadas, enquanto milhares de notícias passaram por suas mãos, ele também escreveu, com trabalho e simplicidade, uma história digna de ser contada.

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