‘Maldição das midterms’: derrota do partido do presidente é regra histórica

Quando Donald Trump declarou que “seja você um bom presidente ou um ótimo presidente, você perde as eleições de Meio de Mandato” e prometeu “mudar isso”, ele apenas descreveu uma das regularidades mais consistentes da política americana moderna. A frase revela mais sobre o funcionamento do sistema eleitoral dos Estados Unidos do que qualquer narrativa que trate o resultado como um julgamento excepcional do governo do momento.

Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, o partido que ocupa a Casa Branca perdeu cadeiras na Câmara dos Representantes em 18 das 20 eleições de meio de mandato realizadas entre 1946 e 2022. A perda média gira em torno de 26 assentos. As únicas exceções claras no período pós-1946 foram Bill Clinton em 1998 (ganho de 4 cadeiras na Câmara) e George W. Bush em 2002 (ganho de 8). Antes disso, Franklin D. Roosevelt também ampliou a base democrata em 1934, no auge do New Deal e do apoio popular pós-Grande Depressão. São casos raros, quase sempre ligados a contextos extraordinários de popularidade ou coesão nacional.

Fenômenos atinge democratas e republicanos

A lógica é estrutural, não conjuntural. Todos os 435 deputados da Câmara enfrentam o eleitor a cada dois anos. Qualquer oscilação nacional de humor ou de aprovação do presidente se propaga quase de forma uniforme pelo país, transformando a disputa da Câmara em algo próximo a um referendo sobre o governo. O Senado, com apenas um terço das cadeiras em jogo a cada ciclo, é menos previsível: depende de quais estados estão em disputa e de seus equilíbrios locais. Por isso, o padrão de perdas é mais rígido na Câmara do que no Senado.

O fenômeno atinge democratas e republicanos indistintamente. Barack Obama perdeu 63 cadeiras na Câmara em 2010; Bill Clinton perdeu 54 em 1994; Harry Truman perdeu 56 em 1946; Donald Trump perdeu 41 em 2018; Joe Biden perdeu 9 em 2022. As maiores derrotas costumam ocorrer quando a aprovação do presidente está baixa ou quando há descontentamento econômico ou político generalizado. As raras vitórias do partido no poder exigem circunstâncias excepcionais — como o efeito de unidade nacional pós-11 de setembro sob Bush ou a rejeição popular ao impeachment de Clinton.

No Brasil, torcida contra Trump distorce o fato

Parte da cobertura brasileira das midterms, no entanto, tende a apresentar o enfraquecimento do partido do presidente como um evento mais dramático ou particular do que o histórico permite. Fala-se em “revés”, “desastre” ou “risco de impeachment” como se a perda de assentos fosse uma anomalia ligada à figura do ocupante da Casa Branca, e não a regra do jogo. O próprio Trump, ao reconhecer publicamente o padrão e tentar superá-lo, oferece um contraponto útil: a previsibilidade é tão forte que até o presidente em exercício a trata como dado.

Isso não significa que a magnitude da perda seja irrelevante. Com maiorias estreitas, a diferença entre perder 10 ou 40 cadeiras pode determinar o controle da Câmara e a capacidade de oposição de investigar ou bloquear a agenda do Executivo. Mas a direção do movimento — o partido do presidente perder força na Câmara — é, há décadas, o resultado esperado. Tratar esse desfecho como surpresa recorrente obscurece a regularidade estatística e a mecânica institucional que a produz. O verdadeiro debate, na maioria dos ciclos, não é se o presidente vai “perder as midterms”, e sim o quanto.

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