Em 18 de maio de 1973, Araceli Cabrera Crespo desapareceu em Vitória, Espírito Santo. Seis dias depois, o corpo da menina foi encontrado em um terreno baldio. Ela havia sido sequestrada, drogada, violentada e assassinada. Apesar do crime ter chocado o Brasil na época por tamanha barbaridade, ninguém foi condenado pela morte da criança, que tinha apenas 8 anos de idade.
A data hoje marca o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes e é fundamental para mobilizar a sociedade na proteção da infância. Entendendo a importância da pauta e da proteção da infância e juventude, o Jornal de Brasília e o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) firmaram parceria para ampliar o debate e fortalecer o combate à violência sexual infantojuvenil.
Filha de Lola Cabrera Crespo e Gabriel Sanchez Crespo, Araceli fazia diariamente o percurso de sua casa, no bairro de Fátima, até a Escola São Pedro. No dia do crime, a mãe da criança havia pedido para que ela pegasse o ônibus mais cedo na volta para casa, temendo que ela o perdesse e tivesse que voltar a pé, como já havia acontecido uma vez. Embora ela tenha saído mais cedo da escola naquele 18 de maio, os fatos que impediram a menina de chegar em casa nunca foram esclarecidos.
À época, policiais ouviram diversas versões sobre o ocorrido. Dois herdeiros de famílias poderosas do Espírito Santo, Dante de Barros Michelini e Paulo Constanteen Helal, foram acusados de drogar, estuprar e matar a menina. O pai de um deles, Dante Brito Michelini, também foi acusado de ter contribuído para o crime e de ter usado sua influência para atrapalhar as investigações. Todos se declararam inocentes e, apesar de terem sido condenados no primeiro julgamento, foram inocentados após recurso.
A morte de Araceli evidenciou, mais do que nunca, a brutalidade da violência sexual contra crianças e adolescentes. O dia 18 de maio tornou-se, assim, um símbolo do combate a esse tipo de crime, e foi instituído pela Lei 9.970, de 2000, como o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. Desde então, o Brasil viu avanços nessa questão. No entanto, a luta pela proteção da infância ainda é constante e precisa ser mais forte do que nunca.
Maio Laranja e a realidade no Distrito Federal
A história da menina marcou o Brasil, há 53 anos, e o caso nunca teve um desfecho, mas foi emblemático e exerceu papel fundamental para levantar o alerta: crianças e adolescentes precisam ser protegidos. Assim surgiu a campanha nacional do Maio Laranja em prol da proteção infantojuvenil. Em diferentes proporções e contextos, milhares de crianças e adolescentes em todo o planeta passam ou já passaram por algum tipo de violência sexual, seja pela exposição a conteúdo pornográfico, seja como vítimas de crimes hediondos, que precisam ser punidos com todo o rigor.
A realidade no Distrito Federal preocupa. Ao longo de 2025, o MPDFT ofereceu 967 denúncias por crimes contra a dignidade sexual e maus-tratos a vítimas menores de 18 anos – mais da metade (53,1%) de todos os 1.820 casos registrados no ano passado. Os crimes mais recorrentes contra crianças e adolescentes foram estupro de vulnerável, maus-tratos, importunação sexual e estupro, segundo os dados do órgão.
O levantamento do MPDFT indica ainda que, ao longo de 2025, pelo menos uma criança ou pré-adolescente (até os 14 anos) foi vítima de estupro por dia na capital. O crime tipificado como estupro de vulnerável registrou 584 denúncias no ano passado.
As maiores concentrações de denúncias relacionadas a crimes contra a dignidade sexual de crianças e adolescentes foram registradas em Ceilândia, com 107 casos; Brasília, com 55; Samambaia, com 48; Planaltina, com 40; Sobradinho, com 35; e Taguatinga, com 33. Outro dado relevante, segundo o MPDFT, é a predominância de vítimas do sexo feminino.


