Vitor Ventura
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O último domingo (17) em Brasília foi marcado por muita música e uma homenagem a um dos maiores sambistas da história, o Cartola. Com a programação iniciada ao meio-dia no Eixão Norte, a maior atração da tarde foi Dhi Ribeiro, dona de uma das vozes mais marcantes do samba contemporâneo. Acontecendo pela primeira vez no Eixão, os shows fazem parte do Projeto Cartola, iniciativa que relembra o legado do mestre do samba e que vinha sendo realizada desde abril quinzenalmente no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) e no Clube do Choro de Brasília.
Para abrir a tarde de música, o Regional Choro Livre, com Henrique Neto, Valério Xavier, Júnior Viegas, Jackson Delano e Márcio Marinho, encantou não só com o choro mas também com clássicos da música brasileira, da bossa nova ao samba. Henrique, diretor musical do Projeto Cartola e da Escola Brasileira de Choro, contou que a iniciativa se consolidou como um novo ponto de cultura ao ar livre em Brasília, reforçando o compromisso do Clube do Choro e do CCBB em aproximar o público da arte e da tradição musical do Brasil.
Dhi Ribeiro, reconhecida por ser uma das grandes intérpretes de samba no Brasil, falou da experiência de relembrar o legado de um dos maiores sambistas em Brasília. “É sempre um prazer poder homenagear figuras ilustres da nossa música, não deixar que ela seja esquecida. O Clube do Choro tem um trabalho muito bonito de fazer com que isso permaneça, que a nossa cultura permaneça. Eu acho que isso é o mais importante. Poder participar, colocar minha voz aqui dentro desse contexto também é muito importante para mim”, destacou a cantora.
Nascida Edilza Rosa Ribeiro em Nilópolis, no Rio de Janeiro, Dhi cresceu em Salvador, berço de sua formação musical e da conexão profunda com as tradições afro-brasileiras, influenciada pelos tambores do Afoxé Filhos de Gandhi, fundado por seu avô. Iniciou a carreira como backing vocal e, após vencer o prêmio de Cantora Revelação no Carnaval de Salvador em 1993, mudou-se para Brasília, onde consolidou sua trajetória como uma das grandes intérpretes do samba.
O legado de Cartola
“O Cartola cantava a verdade dele, e era simplesmente atemporal”. Foi o que descreveu Dhi Ribeiro ao explicar a importância do legado do sambista. Ela destacou como é fundamental exaltar os grandes artistas da música brasileira para eternizá-los. “Há músicas de 40 ou 50 anos atrás que as pessoas de uma geração mais nova estão conhecendo agora. Todo mundo vai ouvir uma música do Cartola e vai achar ela linda. A importância é manter esse legado vivo, manter essa história viva, não só do Cartola, mas de tantos outros”, explicou.
Esse é justamente o propósito do Projeto Cartola, homenagear um mestre do samba, um gênero que não apenas inspira o choro, mas moldou de forma definitiva a música brasileira. Poeta do cotidiano e cronista dos sentimentos humanos, Cartola foi compositor, letrista e intérprete. Suas canções expressam com delicadeza e lirismo temas como o amor, a dor, a saudade e a esperança, tornando-se verdadeiros hinos da MPB. Sucessos como O Mundo é um Moinho, As Rosas Não Falam e Preciso Me Encontrar permanecem vivas no imaginário coletivo, emocionando gerações e reafirmando seu papel como um dos maiores autores da história da música popular brasileira. Mais do que músico, Cartola é símbolo de resistência, elegância e autenticidade. Foi peça-chave para a consolidação do samba como expressão cultural genuinamente brasileira e símbolo da identidade nacional.
Para Dhi Ribeiro, o Cartola possuía essa habilidade de mesclar os diferentes gêneros da música e fazer um trabalho único. “O samba, que é esse ritmo que nasceu no nosso chão, quando se mistura com o choro fica lindo demais”, afirmou a sambista. Henrique também ressaltou a importância do Cartola para o gênero: “Ele tem tudo a ver com o choro. Os músicos que acompanhavam Cartola eram os mesmos que acompanhavam Pixinguinha e Jacob do Bandolim. Então a gente está trazendo essa música que é sinônimo da nossa brasilidade”, disse.
Cultura viva na Capital
Alexandre Luna era um dos muitos que estavam no Eixão prestigiando o samba e o choro em homenagem a Cartola. Pernambucano que mora em Brasília há 30 anos, ela falou de uma sensação de liberdade em poder apreciar a música brasileira ao ar livre. “É preciso valorizar o nosso costume e a nossa cultura, seja ela paranaense, pernambucana igual a minha, ou do Pará. Tudo isso é cultura, é dança”, contou Alexandre.
Henrique destacou que shows como esse democratizam o acesso à cultura brasileira. “O Clube do Choro vem fazendo isso há 30 anos em Brasília, mostrando e valorizando os grandes compositores brasileiros”, ressaltou o músico. Para finalizar o Projeto Cartola, no domingo (31) será realizado mais um show no Eixão Norte, na altura do Plaza Shopping, para homenagear o sambista. Dessa vez, além do Regional do Choro, o espetáculo contará com a cantora Teresa Lopes de forma totalmente gratuita.