Mais de 8 mil crimes em menos de dois meses expõem mapa da insegurança no DF

O Distrito Federal registrou mais de 8 mil crimes patrimoniais em menos de dois meses de 2025, revelando um cenário de insegurança marcado por diferenças regionais e padrões bem definidos de atuação criminosa. De janeiro a 26 de fevereiro, foram contabilizados 1.567 roubos, média de 27 por dia,  e 8.127 furtos, o equivalente a 145 ocorrências diárias, número mais de cinco vezes superior ao de roubos.

mais de 8 mil crimes em menos de dois meses expõem mapa da insegurança no df créditos daniel xavier jornal de brasília (2)
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Os dados mostram que os crimes mais violentos, como roubos, se concentram principalmente nas regiões administrativas periféricas. Ceilândia lidera o ranking, com 330 registros, seguida por Samambaia (189), Plano Piloto (168), Taguatinga (134) e Santa Maria (114). Já nos furtos, o cenário se inverte: o Plano Piloto aparece com ampla vantagem, somando 2.151 ocorrências, bem à frente de Ceilândia (930), Taguatinga (692), Samambaia (447) e Gama (326).

A distribuição dos crimes evidencia uma dinâmica urbana desigual. Enquanto as áreas centrais, com maior circulação de pessoas e atividades comerciais, concentram furtos, crimes geralmente sem violência, as regiões mais afastadas registram maior incidência de roubos, que envolvem ameaça ou uso de força.

Os locais mais visados também seguem um padrão. Roubos ocorrem, principalmente, em vias públicas, como praças e pontos de ônibus, além de bares e residências. Já os furtos são mais frequentes em casas, estabelecimentos comerciais e no transporte coletivo. A repetição de ônibus e residências nos dois tipos de crime escancara fragilidades estruturais: nem mesmo dentro de casa ou durante o deslocamento diário o cidadão se sente completamente seguro.

mais de 8 mil crimes em menos de dois meses expõem mapa da insegurança no df créditos daniel xavier jornal de brasília
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Dados de 2025 do programa DF – Segurança Integral indicam que o roubo a pedestres é, de longe, o mais comum, representando 87% dos casos a cada 100 registros. Em números absolutos, são mais de 9 mil ocorrências desse tipo. Em seguida, aparecem os roubos de veículos (8%), de comércio (3%), em transporte coletivo (1%) e em residências (1%).

O uso de armas também chama atenção. Armas de fogo estão presentes em 43% dos roubos a pedestres, enquanto armas brancas aparecem com mais frequência em crimes contra veículos (39%) e residências (21%), evidenciando diferentes estratégias conforme o alvo.

Para o especialista em segurança pública Leonardo Sant’Anna, o cenário é resultado de uma combinação de fatores estruturais e sociais. “Esse é um crime de oportunidade, que ocorre a partir da dinâmica de circulação de pessoas e do poder aquisitivo da população do Distrito Federal. Além disso, há fragilidades na legislação que acabam contribuindo para a reincidência”, explica.

Segundo ele, o crescimento desordenado do DF nas últimas décadas agravou o problema. “Mais de 50% do território é ocupado por áreas não planejadas. Isso exige uma adaptação constante das forças de segurança e redirecionamento de investimentos públicos, o que impacta diretamente na eficácia das políticas de prevenção”, afirma.

O especialista destaca que o combate aos crimes patrimoniais vai além da atuação policial. “Iluminação pública, transporte eficiente, redução do desemprego e uso de tecnologia precisam caminhar juntos. Sem essa integração, as instituições de segurança não conseguem cumprir plenamente seu papel”, diz.

Outro fator apontado por Sant’Anna é a valorização dos celulares no mercado ilegal. “Hoje o aparelho concentra dados pessoais e financeiros, além de ter alto valor mesmo desmontado. Ainda assim, muitas vezes esse tipo de crime é tratado como de menor importância”, pontua. 

A insegurança 

mais de 8 mil crimes em menos de dois meses expõem mapa da insegurança no df Ítalo ribeiro, de 20 anos créditos daniel xavier jornal de brasília
Ítalo ribeiro, de 20 anos créditos daniel xavier jornal de brasília

A percepção da população reflete os dados. O autônomo Ítalo Ribeiro, de 20 anos, morador de Planaltina, avalia que a segurança no DF é “razoável”, mas desigual. “O Plano Piloto passa mais sensação de segurança por ter mais policiamento, mas ainda existem áreas que preocupam, principalmente à noite”, afirma. 

Ele relata desconforto em locais escuros ou com grande presença de pessoas em situação de rua, como o Conic e a região do Setor Comercial Sul. “Nunca fui assaltado, mas já me senti inseguro várias vezes, tanto em Brasília quanto em Planaltina”, diz. Segundo ele, amigos já foram vítimas de roubo na região onde mora.

mais de 8 mil crimes em menos de dois meses expõem mapa da insegurança no df luís rocha, de 24 anos e isis fernandes, morador do riacho fundo créditos daniel xavier jornal de brasília
luís rocha, de 24 anos e isis fernandes, morador do riacho fundo créditos daniel xavier jornal de brasília

A mesma percepção é compartilhada por Luís Rocha, de 24 anos, morador do Riacho Fundo. Ele afirma que sente diferença clara entre as regiões. “A Asa Norte é mais segura do que onde eu moro. Isso é perceptível no dia a dia”, relata. Apesar de nunca ter sido assaltado, ele afirma que vive em alerta em algumas áreas, como Taguatinga Centro. “Amigos meus já foram roubados, eu também quase já fui roubado, principalmente por causa de celular”, conta. Para Luís, a rotina da população dificulta qualquer tentativa de prevenção individual. “A gente precisa sair para trabalhar, estudar. Não tem como evitar totalmente. O que ajudaria mesmo era mais policiamento nas ruas”, avalia.

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