MILÃO, ITÁLIA (FOLHAPRESS)
Após a partida que tirou a Itália da Copa do Mundo deste ano, na terça-feira (31), análises que falavam de “apocalipse” e “pesadelo” apontavam também a existência de uma geração de italianos que está crescendo sem ver a seleção do país disputar Mundiais. A última Copa da Itália foi no Brasil, em 2014, quando foi eliminada na primeira fase.
Com a derrota para a Bósnia, os “bambini” e “ragazzi” agora vão ter que esperar até 2030 por uma nova chance. Apesar de o futebol ser o esporte mais popular do país, jovens terão completado 16 anos sem jamais ter assistido ao vivo a um jogo da Itália em Copas. Presente em 18 edições passadas, o país é tetracampeão, tem dois vices e um terceiro lugar.
“Pela primeira vez teremos jovens que vão se tornar maiores de idade sem nunca ter visto a Itália em Copa do Mundo”, escreveu o jornalista Luigi Garlando na primeira página da Gazzetta dello Sport.
Ainda em campo, o jogador Leonardo Spinazzola mencionou essa geração em sua entrevista após a partida. “É um enorme desprazer para todos, o grupo, as nossas famílias, os italianos e as nossas crianças, que vão ver mais um Mundial sem a Itália”, disse.
“Foi uma sensação de desilusão, mas não de tristeza. No fundo, sabia que não venceríamos. Quando me perguntavam, dizia que estava otimista, mas tinha medo de que fosse acabar assim”, disse à Folha Davide Zagordi, 14, estudante do ensino fundamental que treina futebol em uma escola de Milão. Torcedor do Napoli, ele acompanha o esporte com atenção e sabe de cor placares e escalações de jogos históricos, não só do futebol italiano.
Na noite de terça, assistiu à partida contra a Bósnia com cerca de dez amigos, na comemoração de um aniversário. “Festejamos, gritamos, como se faz quando se vê um jogo em grupo. Daí tudo acabou em derrota”, afirmou ele, que diz ter chorado de leve com o resultado.
“Esse jogo resume o que é o futebol da Itália nos últimos anos. A Bósnia fez 30 chutes ao gol; nós, 9. A Itália não evoluiu, ficou na retranca, à espera de uma oportunidade”, avaliou.
Nascido em 2012, ele tinha dois anos na última Copa disputada pela Itália. “Desse Mundial não tenho nenhuma lembrança”, afirmou. O mesmo vale para a desqualificação para a Copa de 2018, quando a Itália perdeu para a Suécia.
Em 2021, vivenciou um ano excepcional para o esporte nacional, com a Itália terminando entre os dez melhores nos Jogos Olímpicos de Tóquio e ganhando da Inglaterra na final da Eurocopa.
“Aos nove anos tive uma das maiores alegrias possíveis, ao ver a Itália vencer a Eurocopa, como time forte. Depois, em 2022, veio a desilusão com a derrota para a Macedônia do Norte, que não é tão diferente da Bósnia”, recordou. “Ali, sim, senti muita tristeza, uma amargura muito mais forte daquela que senti agora.”
Tudo o que Davide sabe da Itália em Copas veio por meio de vídeos históricos, leituras e relatos. “Ouço as histórias da minha família sobre os Mundiais, do meu tio, que é um grande apaixonado, e do meu pai. Ele me conta, por exemplo, da famosa partida Itália e Argentina em Nápoles”, disse, sobre a semifinal da Copa de 1990, disputada no país europeu. “Meu avô também falava muito do Paolo Rossi e do Mundial de 1982.”
“Tenho toda essa mitologia da Itália nas Copas, que parece algo impossível, parece que estão te contando uma historinha para te divertir. Mas a Itália foi uma grande do futebol mundial”, afirmou Davide.
Segundo ele, a ausência da “Nazionale”, como é chamada a seleção, não vai diminuir seu interesse pela próxima Copa. “Vou assistir por dois motivos. Pelo formato novo, com mais equipes. E porque será meu último Mundial como adolescente, com vários jogadores fortíssimos, alguns que foram os primeiros que eu vi”, disse, citando o croata Luka Modric.
Entre seus amigos, no entanto, ele percebe menos empolgação. “O entusiasmo pelo futebol anda um pouco apagado. Muitos dizem que não ligam, não gostam, que o tênis é melhor, que não tem sentido jogar.”
Até 2030, ele espera uma mudança radical.
“É evidente que, depois de três edições fora da Copa, é o próprio sistema que precisa mudar, não só o técnico ou os jogadores”, afirmou. “Tem que mudar a abordagem, o modo como se joga.”



