ALEX SABINO
FOLHAPRESS
Carlo Ancelotti é a décima tentativa da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) para tentar fazer o Brasil retomar a hegemonia perdida. Desde 2002, quando a seleção masculina conquistou o título mundial pela última vez, houve diferentes apostas. Treinador experiente, novato, repetido. Trabalhos de curto e de longo prazo.
Ancelotti, italiano, é o quarto estrangeiro. Desde que Luiz Felipe Scolari foi campeão em 2002, o Brasil teve Carlos Alberto Parreira, Dunga (duas vezes), Mano Menezes, Scolari de novo, Tite, Ramon Menezes, Fernando Diniz e Dorival Júnior.
Tite (2018 e 2022) foi o segundo a comandar o Brasil em duas Copas consecutivas. O outro foi Telê Santana (1982 e 1986).
Antes de Ancelotti, o Brasil teve três treinadores nascidos no exterior. Todos com curtíssimas passagens: o uruguaio Ramón Platero (1925, quatro jogos), o português Joreca (1944, uma partida) e o argentino Filpo Núñez (1965, um confronto).
Em junho de 2026, o Brasil chega a 24 anos sem atingir o topo da montanha do futebol mundial. A última vez que o jejum foi tão grande aconteceu entre 1970 e 1994.
Se a seleção não vencer o torneio nos Estados Unidos, no Canadá e no México, terá nova chance apenas em 2030. Seriam, então, 28 anos, a maior seca de títulos da história da equipe, ao lado do período entre o Mundial inaugural (1930) e a primeira conquista (1958).
“Quero aproveitar a enorme qualidade que este país tem. Que essa qualidade possa se agrupar com um único objetivo, que é ganhar a Copa do Mundo”, disse Ancelotti.
A hegemonia em prêmios individuais ensaia uma retomada. A partir da criação da escolha de melhor do mundo pela Fifa (Federação Internacional de Futebol), em 1991, o país ficou em primeiro com Romário (1994), Ronaldo (1996, 1997 e 2002), Rivaldo (1999), Ronaldinho Gaúcho (2004, 2005 e 2006) e Kaká (2007). A partir daí começou um hiato inédito, interrompido apenas por Vinicius Junior em 2024.
Foram 17 anos em que os melhores resultados foram com Neymar (terceiro em 2015 e 2017).
“A formação do jogador mudou. A gente não tem mais campo de várzea, a gente não vê mais menino jogando na rua. A gente vê escolinha. Perdemos para a tecnologia”, disse João Paulo Sampaio, coordenador da base do Palmeiras.
O clube paulista se tornou referência e venceu 31 títulos nas categorias amadoras em 2024. Estêvão, 17, foi vendido para o Chelsea por 61,5 milhões de euros (R$ 377,6 milhões).
“O campo de barro, aquele esburacado ou na rua, dava um controle [de bola] melhor. Hoje, a gente pegou o que era ruim do europeu. A gente dá tática para meninos de 10 ou 11 anos. Quantas vezes eu fui a uma escolinha e ouvi o professor dizer ‘passa a bola’, ‘toca a bola’? Tem que falar: ‘Gosta da bola, brinca, arrisca’”, afirmou Sampaio.
Em nenhum dos últimos quatro Mundiais (2010, 2014, 2018 e 2022) o Brasil teve média superior a dois gols anotados por partida. Essa marca foi obtida em todas as vezes nas quais o país teve uma seleção que grudou sua imagem no imaginário da torcida nacional e internacional: 2,57 em 2002; 3 em 1982; 3,16 em 1970; 2,66 em 1958 e 3,66 em 1950.
A seleção caiu nas quartas de final em quatro das últimas cinco Copas (2006, 2010, 2018 e 2022). Na outra, em 2014, foi até a semifinal para levar 7 a 1 da Alemanha.
O futebol brasileiro vive duas realidades. Os clubes, que no passado viviam sem dinheiro e na sombra de argentinos e uruguaios nos torneios continentais, viraram o jogo. Foram sete títulos nas últimas oito Copa Libertadores. Isso não se reflete na seleção.
Relatório da Fifa aponta que, no ano passado, ocorreram 2.350 transferências internacionais. O Brasil liderou a lista com folgas, com 1.217 vendas, gerando receita de US$ 591,5 milhões (R$ 3,06 bilhões).
O aumento de arrecadação gerado por essas negociações, contratos de TV, patrocínios, mensalidades de sócio-torcedor e ingressos tornaram as equipes compradoras. Dos dez clubes que mais gastaram com contratações na América do Sul, nove são brasileiros (Botafogo, Cruzeiro, Flamengo, Vasco, Corinthians, Atlético-MG, Palmeiras, São Paulo e Fluminense).
A seleção pode ser vítima também da globalização do futebol. Há 45 anos, um jogador atuando no exterior ser convocado para Copa era um acontecimento raro. Até 1982, o único “estrangeiro” chamado pelo Brasil para o Mundial foi o ponta Patesko, que estava no Nacional-URU em 1934.
Sócrates, capitão da seleção no Mundial da Espanha, chegou a se manifestar contra a convocação do volante Paulo Roberto Falcão por ele estar no exterior. A proporção de atletas “de fora” ficou cada vez maior, mas até o penta, em 2002, a maioria sempre atuava no Brasil. Isso mudou a partir de 2006. No torneio na Alemanha, 20 dos 23 chamados por Parreira estavam no exterior.
No último torneio, em 2022, no Qatar, eram 23 dos 26 selecionados.
MULHERES AINDA BUSCAM O TOPO
A situação é diferente na seleção feminina, que ainda busca a hegemonia que um dia foi do masculino. Apesar de ter a jogadora mais premiada da história, o Brasil nunca venceu a Copa do Mundo ou conquistou a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos.
Na modalidade, os países podem levar força máxima. É diferente das equipes de homens, que têm permissão para convocar apenas três jogadores com mais de 23 anos. A Fifa impõe a restrição porque não é do seu interesse comercial um torneio de nível técnico de Mundial a cada dois anos.
Nas Olimpíadas, as mulheres foram prata em 2004, 2008 e 2024. A Copa nasceu em 1991. Em nove edições, o Brasil foi vice em 2007 e terceiro em 1999.
Em prêmios individuais, não há comparação. A jogadora mais vezes eleita melhor do mundo foi a atacante Marta, vencedora em 2006, 2007, 2008, 2009, 2010 e 2018.
Qualquer comparação com o masculino é descabida. O Campeonato Brasileiro nasceu em 2013. Apenas nos últimos anos o esporte começou a ser exibido em TV aberta, e as jogadoras se tornaram assalariadas. Só nos grandes clubes, porém.
“O que a gente vê hoje é uma retomada, tanto de conhecimento sobre o histórico esportivo e uma reconstrução do engajamento não só brasileiro, mas mundial, em relação a esse esporte praticado por mulheres. Tecnicamente, dentro de campo, elas oferecem às vezes um espetáculo muito mais interessante que o masculino”, afirmou a historiadora Aira Bonfim, autora do livro “Futebol feminino no Brasil: entre festas, circos e subúrbios, uma história social (1915-1941)”.
Ela cita “retomada” porque as mulheres foram proibidas, por lei, de praticar futebol no Brasil por quatro décadas. A liberação aconteceu apenas em 1979. Isso atrasou o jogo e desacostumou o público a assistir à modalidade.
“A gente vive hoje uma profissionalização tardia, de um time nacional e de uma organização de um mercado que estava estabelecido para o futebol masculino e que tenta se adaptar [às mulheres]”, disse Aira.
Há um abismo financeiro. A maior transferência da história do futebol feminino brasileiro foi a venda da atacante Amanda Gutierres, do Palmeiras para o Boston Legacy (EUA), neste ano, por US$ 1,1 milhão (R$ 5,7 milhões). Sem contar a porcentagem por contratos publicitários, apenas o acordo de Neymar com o Santos é de R$ 4 milhões mensais.
Em 2025 também houve a maior negociação da modalidade em todos os tempos. A francesa de origem congolesa Grace Geyoro se transferiu do Paris Saint-Germain para o London City por 1,43 milhão de libras (R$ 10,08 milhões). A transação mais cara já registrada no masculino foi a de Neymar do Barcelona para o PSG, em 2017: 222 milhões de euros (R$ 1,4 bilhão).



