Balanço do primeiro ano da restrição às telas nas escolas

A Lei nº 15.100/2025, que restringe o uso de celulares nas escolas, completou um ano neste mês de janeiro. Em balanço realizado pela Secretaria de Educação do Distrito Federal (SEEDF), 38,2% dos profissionais da educação consideraram a implementação eficiente e 35,7% a classificaram como muito eficiente. Quem respondeu a pesquisa os efeitos foram positivos, especialmente na atenção dos estudantes. A pasta seguirá com a avaliação neste novo ano letivo. A equipe de reportagem do JBr conversou com pais, alunos e professores para entender os impactos da medida no primeiro ano em que foi aplicada no cotidiano escolar.

A lei estabelece que a proibição do uso de celulares e dispositivos eletrônicos por estudantes nas escolas públicas e privadas, tanto em sala de aula, quanto em qualquer espaço pedagógico da unidade escolar. Sendo assim, a pasta de educação desenvolveu o questionário para avaliar a percepção sobre os impactos da medida no cotidiano escolar. Os educadores que responderam a pesquisa, consideraram ainda que o resultado foi positivo na dinâmica em sala de aula e no fortalecimento das interações interpessoais, favorecendo um ambiente mais focado e colaborativo.

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Foto: Felipe Noronha, Ascom/SEEDF

Mas a avaliação identificou desafios que foram apresentados com a implementação da medida, especialmente nos anos finais do ensino fundamental e médio, relacionados à adaptação dos estudantes, à comunicação com as famílias e à necessidade de ampliar alternativas pedagógicas ao uso do celular.

O órgão ressaltou ainda que foram elaborados documentos com orientações sobre a restrição do uso de aparelhos eletrônicos no ambiente escolar, com destaque para o guia “O celular na escola: modo aprendizagem”, que está disponível no site da SEEDF. O arquivo oferece diretrizes claras e estratégias práticas para a implementação da legislação, apontando a diferença entre porte e uso dos celulares. Para além disso, no documento a SEEDF reforça a importância de criar alternativas que incentivem a socialização e a criatividade dos alunos.

A pasta salientou que segue monitorando os impactos da medida e realizará, em 2026, uma nova pesquisa para consolidar o balanço após um ano completo de vigência da lei. O investimento em recursos tecnológicos educacionais também está sendo feito, por meio do Programa Horizontes Digitais, com o objetivo de ampliar as opções pedagógicas que preservem a atenção e promovam o uso responsável da tecnologia.

Batalha constante

A professora de física Thátyusce Bonfim dá aulas para alunos do Ensino Médio e reflete que, no começo do ano passado, no início da implementação, a cobrança foi muito grande na aplicação da medida. “Foi um grande esforço de não deixar usar em hipótese alguma em ambiente nenhum da escola, que é o que realmente fala a lei.” Em uma das escolas em que ela leciona, os funcionários se atentavam até para o uso na portaria e recolhiam o aparelho na hora. O que gerou uma reclamação muito grande por parte dos pais e responsáveis quanto a utilização de aplicativos para pagamento do lanche ou aplicativos de mobilidade. 

Ela sentiu que a maioria das escolas tentou adequar o uso dos telefones conforme a necessidade. Thátyusce conta que diferentes escolas trataram de maneiras diferentes: “Tem escola que recolhe o celular do aluno e ele só tem esse celular de volta se o responsável for buscar. Mas tem escola que não pode, em hipótese alguma, tocar no celular do aluno”, disse. Nesses casos, se os professores e funcionários virem o aluno usando o aparelho, eles devem pedir para o estudante recolher.

Thátyusce afirma que foi uma batalha constante ao longo do ano anterior para que os alunos se acostumassem com a nova dinâmica. “Principalmente com os meninos mais velhos, porque os mais novos respeitam mais.” Ela descreveu que os celulares eram usados nas trocas de professores. “Mas durante a aula, eu observei uma melhora significativa. Eu acho que na pandemia a gente teve um apelo muito grande para tentar aliar a tecnologia ao ensino, para que eles não sentissem a necessidade de usar o celular para outra coisa, e eu acho que a gente colheu os prejuízos disso depois”, concluiu. Agora, o desafio está sendo readequar os estudantes a um modo mais analógico e não tão digital.

As vantagens e desvantagens da restrição

Marcia Aguiar, 42 anos, técnica em secretariado, tem uma filha de 13 anos e, ao JBr, contou que a restrição ao uso do celular nas escolas trouxe pontos positivos e negativos. O ponto negativo foi a falta de notícias no deslocamento de volta da escola. “Pois meus filhos são usuários de transporte escolar e demoram muito para chegar em casa”, comentou. Mas o lado bom, para Marcia, foi que o afastamento das telas durante o período de aprendizado fez com que as crianças se concentrassem mais no conteúdo. “Até porque essa nova geração tem uma dificuldade maior de concentração e dispersa com facilidade. Mas acredito que tudo é questão de adaptação.” Por fim, Marcia concluiu que, ao longo do ano letivo passado, o uso da tecnologia não fez tanta falta assim, já que a restrição iniciou no ano anterior.

Adaptação e interação

Para Hanna Silverio Chaves, estudante do terceiro ano do Ensino Médio do colégio Sigma, o mais difícil no começo foi com relação à comunicação para ter notícias dos pais. “Ou dos próprios amigos, porque em uma escola grande foi difícil.” Ela contou que no intervalo passou a conversar mais com os amigos, já que não tinha mais como usar o telefone. “Ficar sem o celular dentro de sala torna a aula mais dinâmica, o que impede que as coisas externas atrapalhem”, afirmou.

Sem a distração, ela acredita que, mesmo que não drasticamente, o desempenho de todos os alunos foi melhorando. Hanna considera já ter se acostumado com a medida, pois sempre gostou de estudar e não sentiu tanta diferença. Entretanto, os colegas de classe sofreram mais com a nova dinâmica. “Só que apesar disso, acho que todos nos acostumamos de certo modo, já que a lei nos trouxe uma certa maturidade em relação aos estudos.”

Daniela Moraes é mãe do Guilherme Moraes Kanffer, estudante do primeiro ano do Sigma. Ela achou muito importante o controle ao acesso de celulares para manutenção do foco dos estudantes. “Eu via que na saída da escola tinha um monte de estudantes que ficavam um do lado do outro em seu mundo próprio com seu celular”, disse. Uma percepção dela foi que os estudantes aprenderam a interagir mais entre si, a dialogar e a buscar novas formas de interagir com o mundo. “O maior benefício sem dúvidas é a interação. Percebo os estudantes menos estressados e mais disponíveis ao diálogo, tanto com seus pares quanto com os adultos.” A maior dificuldade da falta do celular, para ela, é na hora de buscar o filho no fim do turno, ou para alguma comunicação emergencial fora do horário de aula.

Resistência

O diretor geral do Sigma, Marcelo Tavares, alerta que é uma ingenuidade acreditar que o problema do celular desapareceu. “Muitas de nossas crianças experimentam as restrições na escola, mas, quando chegam em casa, têm completamente liberado o universo das telas”, apontou. Principalmente no período das férias, ele considera que isso ainda é mais perceptível.

Dentro do ambiente escolar, porém, ele acredita já ser possível perceber mudanças reais, com grupos de alunos reunidos para jogos de tabuleiro e conversas animadas sem qualquer tipo de referência ao celular. “E algo que havia praticamente desaparecido: os livros”, acrescentou. Ele citou as bibliotecas como protagonistas, sendo compartilhadas em torno de textos e novidades.

Mas ele acredita que a resistência aos celulares deve ser vista como uma realidade constante, principalmente neste retorno às aulas. “Sair do ambiente doméstico, onde muitas crianças ficavam 5 ou 6 horas diante das telas, e retornar à sala de aula com restrições bem definidas é, naturalmente, algo incômodo e que vai gerar resistência”, pontuou. Ele citou que esse uso das telas fora das escolas se dá especialmente quando os pais estão trabalhando. “É fundamental que as famílias estejam ao lado da escola, para que todo o esforço promovido até agora não seja desperdiçado”, reforçou.

Daniela Zuza, mãe da Maria Fernanda Zuza, que é aluna do 8° ano no Sigma, acredita que a medida é extremamente positiva. Ela percebeu, inclusive, que o uso do celular da filha aumentou em casa por ter diminuído na escola, e passou a regular melhor a forma como a menina utiliza a tecnologia. “Acredito que o ambiente escolar foi pensado para o estudo, a aprendizagem e a convivência, e não para o uso de redes sociais ou do telefone celular.” Ela defendeu que, na escola, os estudantes estão sob a responsabilidade dos professores, coordenadores e da equipe gestora. Logo, em caso de qualquer emergência, a escola entra em contato com as famílias, fazendo a mediação entre pais e estudantes.

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