O início da amamentação é um momento único e delicado, que muitas vezes exige tempo, paciência e adaptação.
Para algumas mães, o vínculo com o bebê acontece imediatamente, e a amamentação flui de forma natural.
Para outras, pode levar dias ou até semanas até que mãe e filho encontrem o ritmo certo, ajustando a pega, a frequência e a produção de leite.
Nem todas conseguem amamentar da forma que gostariam. Problemas como pega incorreta, produção insuficiente de leite, separação precoce do bebê ou condições de saúde podem dificultar o aleitamento materno.
Nessas situações, o apoio profissional oferecido por Unidades Básicas de Saúde, maternidades e Bancos de Leite Humano é fundamental para orientar, tranquilizar e buscar alternativas seguras.
O valor do Agosto Dourado
O Agosto Dourado é dedicado à valorização da amamentação. A cor dourada simboliza o padrão ouro do leite materno, considerado o alimento mais completo para os bebês.
De acordo com a Secretaria de Saúde do Distrito Federal, o aleitamento materno exclusivo deve ser incentivado nos primeiros seis meses de vida e mantido até os dois anos ou mais, seguindo recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Ministério da Saúde.
Além dos benefícios nutricionais, a amamentação fortalece o vínculo entre mãe e filho, sendo também um momento de acolhimento emocional.
Quando doar vira gesto de amor
Sofia Mesquita Resende de Andrade, 27 anos, lembra que, após o nascimento do filho, produzia uma quantidade excessiva de leite. A situação, segundo ela, chegava a ser angustiante.
“O que mais me motivou a doar leite foi o excesso que tive na minha primeira gestação. Eu já produzia leite ainda grávida e, depois que meu filho nasceu, a quantidade aumentou muito. Eu ficava desesperada, porque meu filho engasgava, e aquilo me fazia sofrer”, contou.
Ela relata que a doação trouxe um novo significado para aquele momento.
“Quando descobri que podia doar, percebi que aqueles potinhos não tinham só leite, tinham vida. Foi uma bombeira que veio buscar a doação que me explicou isso. Aos poucos fui aceitando a situação, porque antes eu jogava tudo fora. Não é a quantidade que importa, mas saber que tem vida ali.”

Sofia conta que a experiência da doação transformou sua visão sobre a maternidade:
“Com certeza é um ato de solidariedade. Eu sinto que é muito mais do que ajudar, é estender a mão para outra mãe, especialmente em um período tão sensível. É um gesto de amor e humanidade.”
Ela também afirma que a prática fortaleceu seu vínculo com os filhos:
“A doação de leite mudou a minha relação com a amamentação. Eu podia ver meus filhos se desenvolvendo e, ao mesmo tempo, perceber a importância do que estava fazendo. Tinha amigas que não conseguiam amamentar e poder ajudar com o leite que me sobrava reforçou ainda mais esse vínculo, não só com meus filhos, mas também com outras crianças. Eu não conheci as famílias, mas ouvir os relatos de mães na UTI, esperando a melhora de seus bebês, foi emocionante.”
Como funciona a doação
Segundo a coordenadora do Banco de Leite Humano, Graça Cruz, muitas mulheres se tornam doadoras ao perceber que produzem mais leite do que o necessário para o próprio bebê.
“A maioria descobre que pode ajudar quando percebe que produz mais do que o bebê precisa. Outras passam por períodos em que os filhos ficam internados e precisam de suporte. Quando veem que podem produzir o suficiente e ainda sobra, querem doar como forma de retribuir. Há também quem se sensibilize ao ver campanhas de doação.”
O procedimento exige cuidados básicos de higiene e armazenamento.
“A mãe deve cobrir os cabelos com touca ou lenço, usar máscara, lavar bem as mãos e limpar as mamas apenas com água. A retirada pode ser manual ou com bombinha, e o leite deve ser armazenado em frasco esterilizado, identificado e colocado imediatamente no congelador. Ele pode ser mantido por até 10 dias antes da coleta.”
Para iniciar a doação, a mãe pode entrar em contato pelo site Amamenta Brasília, pelo 160 (opção 4) ou pelo Portal do Cidadão. O banco fornece o kit com frascos e todas as orientações.
Graça explica que a doação é uma forma de solidariedade e retribuição. Muitas mães se sentem motivadas não apenas pelo excesso de leite, mas também pelo desejo de ajudar outras famílias, especialmente aquelas cujos bebês estão internados e precisam de apoio.
No Distrito Federal, a rede conta com 14 Bancos de Leite Humano e 7 Postos de Coleta, além de apoio de equipes nas Unidades Básicas de Saúde e maternidades.

Desafios no Brasil
Apesar dos avanços, ainda há obstáculos para atingir as metas da OMS. Segundo dados do Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (Enani), 96,2% das crianças menores de dois anos já haviam sido amamentadas alguma vez, mas apenas 62,4% receberam leite materno na primeira hora de vida. A maioria das crianças é amamentada exclusivamente só até os três meses e deixa de receber leite materno a partir do 14º mês.
Na comparação regional, a prevalência de aleitamento materno exclusivo foi maior no Sul (54,3%) e menor no Nordeste (39%).
Mitos e verdades
Apesar de ser o alimento mais completo para os bebês, o aleitamento materno ainda é cercado de mitos. A professora de nutrição do CEUB, Dayanne Maynard, esclarece:
“Não existe ‘leite fraco’. O leite materno é sempre completo e nutritivo, adaptando-se às necessidades do bebê. O que importa é a demanda da criança e o estímulo adequado.”
Ela também desmente outras crenças comuns:
“O tamanho da mama não influencia na produção de leite, pois depende do tecido glandular, e não do gorduroso. Nem leite nem cerveja preta aumentam a produção. No caso da cerveja, a crença é até perigosa, já que o álcool passa para o leite e pode prejudicar mãe e bebê.”
Dayanne lembra ainda que o leite materno continua sendo valioso mesmo após os seis meses:
“O leite segue sendo fonte riquíssima de nutrientes e fatores de proteção, mesmo após a introdução da alimentação complementar.”
O obstetra Alécio Oliveira, professor de Medicina do CEUB, reforça que a amamentação provoca mudanças naturais no corpo da mulher:
“Quando a amamentação é frequente e regular, a prolactina permanece em níveis altos, o que inibe a ovulação e o ciclo menstrual. Esse atraso é natural e pode durar meses.”
Ele alerta, porém, que a amamentação não é método contraceptivo infalível:
“Apesar de a amamentação frequente inibir a ovulação em muitas mulheres, ela não é um método anticoncepcional 100% eficaz.”
Oliveira também destaca o impacto na vida íntima:
“Muitas mulheres experimentam diminuição da libido devido ao aumento da prolactina e à redução dos níveis de estrogênio. Além disso, cansaço e sobrecarga de cuidados contribuem. Por outro lado, a ocitocina liberada durante a amamentação pode trazer prazer e bem-estar em algumas mulheres.”