Redação Jornal de Brasília/Agência UniCeub
*Por Mariah Mergener
Para além da estética, feitos em jenipapo e urucum, os grafismos indígenas carregam um grande sistema de significados ligados à espiritualidade e memória coletiva. No Acampamento Terra Livre (ATL), neste ano, realizado no Eixo Monumental, as expressões visuais dos povos são tão presentes quanto os discursos políticos.
As pinturas funcionam como uma linguagem visual própria de cada povo. Etnias de diferentes lugares marcam presença no evento, entre eles os Pataxó (bahia), Haliti Paresi (Mato Grosso) e Xikrin (Pará). Junto do crescente interesse do público não-indígena pelas pinturas corporais, entra no cenário a discussão dos limites entre valorização e apropriação cultural.
Sistema de pinturas Pataxó
As pinturas do povo Pataxó seguem um sistema de grafismos baseados em ocasiões.
O indígena Canajã Pataxó, presente no acampamento, explica que elas variam de acordo com as situações, tendo assim grafismos específicos para guerra, casamentos, batizados, dia a dia, sendo aplicadas em diferentes partes do corpo definidas pela tradição.
“Varia o momento em que fazemos nossa escritura. Tem escritura para guerrear, escritura para casamento, batizado. São vários símbolos que a gente utiliza em determinados locais diferentes”, diz.
Cores e formas
Assim como os formatos geométricos, as cores também exercem funções distintas. O tauá, barro de coloração amarelada, é utilizado em rituais de passagem e celebrações ligadas à infância, representando renovação e proteção para o povo Pataxó. O vermelho, extraído do urucum, é descrito como o pigmento mais antigo utilizado.
O preto do jenipapo passou a ser incorporado com frequência após o episódio marcante: assasinato de Galdino Jesus dos Santos, indigêna Pataxó, morto e queimado enquanto dormia em um ponto de ônibus em Brasília, em 1997. A partir do acontecido o preto se tornou símbolo de luta. “A gente passou a utilizar o preto pela resistência dele”, diz Cajanã.
Troncos linguísticos
A diversidade de grafismos no acampamento reflete a grande pluralidade de povos, são mais de 300 etnias indígenas presentes no Brasil, utilizando desse recurso como representação e criando um espaço cultural próprio.
Exna, estilista Pataxó explica que o compartilhamento de padrões dentro de um mesmo tronco linguístico. Dentro do tronco macro jê (um dos dois maiores agrupamentos linguísticos indígenas do país), por exemplo, um mesmo grafismo pode ter diversos significados dependendo da tribo.
“O mesmo grafismo pode ter vários significados para povos diferentes”, diz ela. Um losango que para os Pataxó representa união pode ter outro sentido completamente distinto para os Kayapó.
Resgate cultural após o massacre de 1951
Conhecido como “Fogo de 51”, um ataque policial à aldeia Pataxó Barra Velha, localizada na Bahia, resultou em um massacre dos moradores e expulsão do território. O acontecimento é um marco de violência e resistência para a etnia.
Exna, estilista indígena Pataxó, comenta sobre o resgate cultural que ocorreu após o episódio violento. “Nossa parte cultural,não só a língua materna, ficou adormecida por muito tempo por causa da perseguição que tinha na região” , conta ela.
As pinturas estavam mais presentes nos artesanatos como cestarias, lanças e tapetes. Gradualmente os grafismos voltam a ser mais presentes na pele e futuramente começam a ser utilizados na moda também, como é o caso de Exna.
“Antigamente, a gente não utilizava isso em roupas, foi a forma que eu busquei de poder também mostrar um pouco da nossa ancestralidade, um pouco da nossa diversidade de pinturas porque nós somos diversos. Somos mais de 300 povos” diz a estilista.
Admiração ou apropriação
Durante o Acampamento Terra Livre, é possível observar diversas barracas oferecendo a experiência da pintura corporal. A prática funciona como uma aproximação cultural e uma forma de renda durante o evento, porém levanta opiniões controversas.
O tópico acaba se tornando um pouco delicado, visto que muitas das pessoas, tanto não-indígenas quanto os próprios povos indígenas, não procuram saber o significado de algum grafismo, principalmente partindo das pinturas terem diferentes sentidos para povos distintos.
“Há povos, inclusive, que não gostam que utilizem, então é muito delicado de você utilizar e de você se apropriar”, diz Exna.
Para ela, a saída dessa situação acaba sendo a informação. “É importante você saber de onde vem e usar de forma respeitosa, sempre com a consciência da origem” cita a estilista indígena.
*Supervisão de Luiz Claudio Ferreira



