Em meados dos anos 1980, no ocaso da Ditadura Militar, o Brasil foi às urnas para montar o time que redigiria uma nova Constituição. Maria de Lourdes Abadia, hoje no PSD, estava nas cédulas de votação naquelas eleições de 1986, a primeira em que Brasília elegeu seus representantes legislativos, a primeira bancada candanga no Congresso. De lá para cá, concorreu em 1990, 1994, 1998, 2002, 2006, 2010 (sub judicie) 2014, 2018 e 2022, e só não esteve na urna em 2010 por decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Além de deputada federal, atuou também na Câmara Legislativa e foi eleita vice-governadora no segundo governo de Joaquim Roriz, em 2002, tendo assumido o cargo em 2006.
Maria de Lourdes Abadia é um pedaço vivo da história política do Distrito Federal, seja na Nova República ou mesmo na Ditadura Militar, quando atuou como administradora regional de Ceilândia e Taguatinga a mando dos prefeitos – depois governadores – biônicos. Em 2026, fechou uma improvável aliança com o antigo adversário Arruda, barrado pelo TSE a poucos dias do pleito, e caminhou ao lado do ex-governador nas tentativas do pessedista para voltar ao Buriti. Agora, sem o cabeça de chapa principal, está com Paula Belmonte (PSDB) e busca nova vaga na Câmara Federal.
Abadia vê essa eleição como o “mais diferente de que participei”, já que as outras foram caracterizadas como “motivadora, alegre” (1986) e com “uma campanha pela moradia” (2002). Hoje, enxerga a corrida como “eleição da rejeição”. “Só se vê disputas na base de denúncias, de defeitos, de quem é mais ou menos corrupto”, lamenta. Assistente social, administradora regional, deputada constituinte, distrital e federal, secretária, vice-governadora e governadora, ela chega à urna em 2026 com apostas num hospital especializado na terceira idade, outro para tratamento de câncer e creches noturnas. Mas o seu foco, garante, é a defesa do Fundo Constitucional do Distrito Federal.
Após tantas disputas, era de se esperar que a senhora reservasse um tempo para descanso. O que a motivou a concorrer novamente?
Agora, esse ano, foi um apelo dos meus eleitores, do pessoal por onde passei. Passei por várias secretarias, por administrações regionais, por projetos estratégicos. Tive várias equipes diferenciadas, depois a vice, depois o governo. O fato de eu ter sido vice do Roriz, de certa forma eu herdei um pouco dele. As pessoas me olham e lembram do Roriz, em Samambaia acontece muito isso. Tem esse apelo. Outra coisa é o compromisso que eu tenho com Brasília também. Tudo que eu consegui na minha eu devo a essa cidade, aos eleitores. Eu quero ajudar Brasília, principalmente nas minhas propostas, como a construção do hospital para o idoso, do Hospital do Câncer, as creches noturnas para as mães que trabalham à noite. E, claro, não queria ficar aposentada olhando pro teto, sem fazer nada. Eu gosto de rua, das pessoas, de política.
Lá se vão 40 anos desde a primeira eleição do DF – que também marcou sua estreia em corridas eleitorais. É possível estimar o que mais mudou nessas quatro décadas?
Mudou muito. Cada eleição tem uma realidade, não são todas iguais. Por exemplo, a primeira eleição era novidade. Tinha um eleitor ávido para votar, tinha a elaboração da Constituição democrática. Foi uma campanha linda. Ninguém tinha experiência aqui. Foi uma novidade muito motivadora, muito alegre. As outras já foram mais de preservação de Brasília. A do Roriz foram campanhas pela moradia. Era uma eleição para dar um endereço para o cidadão.
Essa eleição de agora é a mais diferente de todas as que eu participei. Não se discute o futuro de Brasília, as necessidades, os projetos. Hoje, é eleição da rejeição. “Quem é que nós não vamos votar?”. É triste. Eu não deixo nem negocio minha esperança por Brasília, mas essa é uma eleição vergonhosa. Só se vê disputas na base de denúncias, de defeitos, de quem é mais ou menos corrupto.
As redes, a nível de comunicação, elas são louváveis. Antigamente, a campanha era de porta em porta. Não tem como hoje, com 35 Regiões Administrativas. Como vai fazer isso em 30 dias? Graças às redes, atinge grande parte ou a maioria dos eleitores. Só tem que ver o conteúdo dessa comunicação.
A candidatura do seu cabeça de chapa foi impugnada pelo TSE e o seu partido aderiu em massa à candidatura de Celina Leão (PP) à reeleição. Por que não seguiu esse caminho?
Eu não fui até por solidariedade ao Arruda. Fiquei muito triste com a exclusão dele nos últimos dias da eleição. Houve muito tempo para que isso fosse discutido e decidido. O que eu posso registrar é a tristeza que eu tenho por ele não ser candidato. O Arruda é um político muito acolhedor e propõe coisas que a população precisa. A Saúde está falida no Distrito Federal. No transporte, as pessoas levam duas horas para ir e outras duas para voltar do trabalho. A Educação foi para o último lugar [no Ideb]. É um diagnóstico muito difícil. A Executiva do partido tem uma ligação muito grande com a Celina – não só econômica, como até familiares. Isso é uma crítica que não é só minha. Eu sempre tive o vírus da rebeldia. Não quis acompanhar porque eu tinha um candidato, eu gostava dele, ele sempre me valorizou. E agora eu vou cair no braço da maior adversária?
A senhora foi uma das responsáveis pela entrada de Celina na política, mas agora está contra ela. Há algum ressentimento? Ela chegou a procurá-la para compor aliança?
Eu tenho o maior respeito pela Celina, mas eu a conheço desde quando ela foi da juventude do PSDB. A gente começou em política juntas, ela foi minha secretária da Juventude. Ela passou esse tempo todo sem eu conseguir falar com ela. Ela só me chamou para ir para o partido dela dois dias depois que eu assinei minha filiação ao PSD, e aí não tinha como, eu já havia dado minha palavra ao Arruda e ao [Gilberto] Kassab [presidente da sigla].
Ela [Celina] me excluiu do governo dela. Eu podia tê-la ajudado com minha experiência. Só agora no final ela me convidou para ir ao PL. Pessoalmente, não tenho nada contra.
Por que o apoio a Belmonte e qual papel cumpriria num eventual governo dela?
Primeiro, porque ela é do PSDB e eu fui fundadora do PSDB. Eu tenho as digitais do tucaninho, eu amo o tucaninho. E, claro, a Paula é uma política que não se envaidece pela luta dela, pela competência. Foi uma das melhores deputadas federais, teve a coragem de denunciar a questão do Master contra tudo e contra todos, saiu em defesa do BRB. Quem escolhe é a população e eu respeito a escolha.
De todas as propostas ou de todos os problemas, o que lhe fez levantar e decidir se candidatar novamente?
Eu diria até que a primeira proposta, a que mexeu comigo, é a defesa do Fundo Constitucional de Brasília. Já querem meter a mão nele para cobrir o rombo do BRB, tudo isso. O FC foi que me deu um empurrão para dizer ‘sim’ e sair candidata. Nós discutimos na Constituinte a importância do Fundo e, depois, fomos ao Fernando Henrique pedir a criação do Fundo. Eu quero defender isso como uma mãe defende um filho. Se pegarem o dinheiro do Fundo Constitucional é o decreto do fim de Brasília. Ele é intocável. Quem ama Brasília me pede para garantir o Fundo para nós. Independente de quem seja nosso governador, pode contar comigo enquanto deputado para trazer recursos para o DF.

