Enquanto candidatos disputam votos nas ruas do Distrito Federal, as campanhas também movimentam trabalhadores que encontram no período eleitoral uma oportunidade de reforçar o orçamento. Entre atividades nas ruas, serviços de comunicação e apoio às candidaturas, a eleição cria uma rede de trabalhos temporários para quem busca uma renda a mais.
Aos 18 anos, Maria Júlia dos Santos ainda se prepara para entrar na faculdade. Estudante no período da manhã, ela encontrou nas eleições uma forma de ganhar dinheiro enquanto se prepara para o próximo passo. O convite veio de um conhecido, que apresentou a possibilidade de trabalhar em uma campanha. Ela aceitou.
Para a jovem, que nunca havia trabalhado em uma eleição, a oportunidade apareceu em um momento em que qualquer dinheiro a mais pode fazer diferença. A ideia é juntar o que recebe para investir na preparação para a faculdade, como um cursinho preparatório para entrar em Veterinária na Universidade de Brasília. “Para quem está desempregado e está estudando, ajuda muito. É um dinheirinho que faz diferença, vai me ajudar a provavelmente realizar um sonho”.
É a primeira vez que Maria Júlia trabalha em uma campanha eleitoral. A experiência não trouxe apenas uma renda temporária. Também fez com que ela passasse a olhar de outra maneira para quem trabalha nas ruas durante o período eleitoral.

Panfletagem no Plano Piloto
Antes de participar da campanha, ela conta que costumava passar direto por quem oferecia panfletos. Agora, entende que, por trás daquele material entregue na rua, existe também alguém trabalhando para ganhar dinheiro.
“Normalmente você está passando, vê o pessoal vindo com um panfleto e acha chato, ignora e passa reto. Agora eu consegui ter uma outra visão de quem está ali. Às vezes a pessoa está passando necessidade mesmo e precisa daquilo.”
Um respiro no orçamento
Para um ambulante de 57 anos, que prefere ser identificado apenas pelo apelido Beto, o trabalho nas eleições tem outro significado. A renda das vendas de bebidas já não tem sido suficiente para dar conta de todas as despesas, e a campanha apareceu como uma maneira de aliviar o orçamento.
Beto trabalha para três candidatos ao mesmo tempo e concilia as atividades eleitorais com o trabalho como ambulante no Plano Piloto. A estratégia foi necessária porque, segundo ele, a remuneração de uma única campanha não seria suficiente para fazer diferença nas contas de casa. “Só um não daria para me ajudar. Precisei de pelo menos mais dois para completar e pagar contas atrasadas, me tirar do sufoco.”
A oportunidade veio por meio de um amigo, que o colocou em mais de uma campanha.
“Eu já trabalhei outras vezes, mas dessa vez meu amigo me ajudou, me colocando em mais de uma. Foi o que me aliviou. Minha esposa também me ajuda nesse extra e panfleta comigo enquanto vendo bebidas aqui no Plano.”
Para Beto, o dinheiro das campanhas não resolve de forma definitiva as dificuldades financeiras, mas oferece algo importante no fim do mês. “É uma chance de dar a quem precisa um apoio, um aparelho de respiração mesmo. Não é para sempre, mas ajuda já no mês.”
A vontade, por isso, seria transformar a oportunidade temporária em algo mais frequente. “Queria que tivesse sempre, ia ser tão bom lá em casa”, completa Beto.
Dinheiro que circula
As histórias de Maria Júlia e Beto mostram dois momentos diferentes em que o trabalho eleitoral pode entrar na vida de um trabalhador. Para uma jovem que busca recursos para investir nos estudos, a atividade aparece como uma primeira experiência profissional. Para um ambulante, funciona como complemento diante de um orçamento que não está dando conta das despesas.
Segundo o professor de Economia da UDF, José Pagnussat, essa movimentação acontece porque as campanhas precisam de uma série de atividades e serviços que vão além da atuação dos próprios candidatos.
“É uma oportunidade para complementar o orçamento das famílias e também se apresenta como uma oportunidade para jovens terem uma experiência de trabalho.”
Entre as atividades estão trabalhos relacionados à comunicação, produção de materiais de divulgação, redes sociais e mobilização nas ruas.
Para o economista, o dinheiro movimentado por essas contratações também pode chegar ao comércio e a outros setores da economia.
“Esses empregos temporários e de prestação de serviços representam um forte aumento da renda disponível, que tende a elevar o consumo e acelerar o crescimento econômico.”
A oportunidade não se limita a quem está sem emprego. Para quem já trabalha ou empreende, a campanha pode representar uma segunda fonte de renda e, ao mesmo tempo, uma chance de conhecer outras áreas e pessoas.
“A oportunidade de atuar em uma atividade diferente traz novas experiências, amplia sua rede de contatos e claro, representa uma renda extra, que sempre é bem-vinda.”
Experiência que pode ficar
Apesar de ter prazo para terminar, o trabalho eleitoral pode deixar algo além do dinheiro recebido durante a campanha. Segundo Pagnussat, os contatos e a experiência adquirida podem ajudar na busca por novas oportunidades depois das eleições.
“A experiência profissional de atuação na campanha eleitoral tende a abrir oportunidades de trabalho ou demandas de serviços após as eleições.”
Regras para contratação
As contratações feitas pelas campanhas precisam seguir as regras eleitorais. De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral as normas estão previstas principalmente na Lei nº 9.504/1997, a Lei das Eleições, e na Resolução TSE nº 23.607/2019, que trata da arrecadação, dos gastos eleitorais e da prestação de contas.
Para as Eleições 2026, o TSE estabeleceu limites para a contratação de pessoal destinado a atividades de militância e mobilização de rua. Os pagamentos e demais despesas das campanhas também precisam ser registrados e comprovados na prestação de contas.
Nas Eleições 2026, a prestação parcial deve informar a movimentação financeira e estimável em dinheiro registrada até 8 de setembro. O prazo para o envio dessas informações vai de 9 a 13 de setembro. A consulta aos gastos declarados pode ser feita pelo DivulgaCandContas.



