Mais de seis décadas depois da inauguração de Brasília, ainda há trechos da capital que guardam uma espécie de silêncio arquitetônico. São espaços imaginados para compor a cidade, mas que nunca ganharam a forma prevista, enquanto outros foram transformados pelo tempo, por novos usos e até por tecnologias que sequer existiam quando Oscar Niemeyer desenhou alguns dos principais cartões-postais do país. Agora, uma instituição autorizada pelo próprio arquiteto a carregar seu nome quer voltar os olhos justamente para essas lacunas e fazer de Brasília uma das principais frentes de continuidade de seu legado.
O Instituto Social Oscar Niemeyer de Projetos e Pesquisas (ISON) nasceu em 2004, antes mesmo de incorporar o nome do arquiteto. A aproximação viria anos depois, quando Niemeyer autorizou que a entidade passasse a levar seu nome e Vera Niemeyer, sua mulher, assumisse a presidência. A relação ajuda a explicar por que, dentro do instituto, patrimônio e arquitetura dividem espaço com uma vertente menos óbvia para quem conhece apenas as curvas deixadas pelo arquiteto: a atuação social.
A proposta, desde então, é não transformar o nome de Niemeyer apenas em memória. O modelo adotado pelo ISON prevê que atividades técnicas e econômicas também ajudem a financiar projetos de interesse coletivo. Os resultados obtidos com os trabalhos da instituição são destinados a novos projetos ou a um fundo voltado às ações sociais, em uma tentativa de criar uma estrutura capaz de sustentar as próprias iniciativas.
Em entrevista ao Jornal de Brasília, o superintendente e representante legal do ISON, João Batista de Morais Jr, explicou que essa concepção partiu do próprio Niemeyer. A conversa também contou com a presença do consultor Roberto Leão, do representante do instituto em Brasília Alberto Coelho e do gestor de tecnologia Marcos Siliprandi.

No campo cultural e patrimonial, o instituto já trabalhou com acervos históricos da Assembleia Legislativa e da Câmara Municipal do Rio de Janeiro, além de participar de iniciativas de recuperação de patrimônio. Também desenvolveu o projeto de um complexo concebido por Niemeyer para Maricá, no Rio de Janeiro, reunindo aquário, centro de pesquisas marinhas, mirante, arena, anfiteatro e espaço de formação profissional ligado à atividade pesqueira.
É justamente esse caminho, partir de ideias e desenhos e desenvolver as etapas necessárias para que possam avançar, que o instituto pretende reforçar em Brasília. Para isso, conta com uma estrutura que ultrapassa a arquitetura: são mais de 120 mestres e doutores de diferentes áreas ligados à rede de consultores e ao Conselho Científico da entidade.
A dimensão social segue a mesma lógica. Na habitação, João Batista cita a participação do instituto em uma iniciativa de retrofit no Rio de Janeiro para recuperar um imóvel ocupado há décadas sem retirar quem vive ali. A proposta é conciliar a requalificação do edifício com uma solução habitacional e fundiária para os moradores.
Em outra frente, o canteiro de obras vira sala de aula. A ideia é permitir que pessoas em situação de vulnerabilidade participem dos trabalhos como aprendizes e saiam dali dominando ofícios como carpintaria e marcenaria. “Cada obra seria uma escola”, resume João Batista. Segundo o instituto, experiências semelhantes já existem em outros estados, e a intenção é trazê-las também ao Distrito Federal.
No coração do Brasil
É com esse histórico que o ISON pretende aprofundar sua presença na cidade mais associada a Oscar Niemeyer. A proposta não se resume a conservar aquilo que Brasília já conhece. O instituto quer discutir justamente o que a capital ainda não viu: projetos que permaneceram sobre a prancheta, novas maneiras de apresentar a produção do arquiteto ao público e intervenções capazes de aproximar patrimônio, turismo e população.

O peso simbólico é inevitável. Niemeyer nasceu no Rio de Janeiro, em 1907, mas foi em Brasília que ergueu algumas de suas obras mais reconhecidas. Palácio da Alvorada, Palácio do Planalto, Itamaraty, Congresso Nacional e Catedral Metropolitana estão entre as construções que ajudaram a dar à nova capital uma identidade reconhecível em qualquer parte do mundo.
Mas o instituto não propõe transformar Brasília em uma fotografia de 1960. Pelo contrário. Para João Batista, preservar a cidade exige compreender que os monumentos também precisam continuar fazendo sentido para quem vive ao redor deles.
“Não é meramente uma questão de arquitetura. É uma questão cultural e de ocupação desses espaços”, afirma. A discussão, segundo o ISON, passa por recuperar a relação do brasiliense com o patrimônio e reforçar uma vocação turística que muitas vezes acaba ofuscada pela imagem de Brasília como centro das decisões políticas do país.
O que Niemeyer ainda deixou no papel
É quando a conversa chega aos projetos nunca executados que a ambição do instituto para Brasília fica mais evidente. Parte da capital imaginada nos primeiros anos permaneceu no desenho. Entre essas propostas estavam a Praça da Soberania, que previa um memorial dos presidentes da República, e a Praça do Povo, concebida como um grande espaço aberto de convivência.

A Praça do Povo é uma das ideias que o ISON deseja recolocar em discussão. Na leitura da entidade, o espaço poderia cumprir uma função cívica: receber cidadãos, movimentos e manifestações populares em uma área apropriada para grandes concentrações, ajudando também a preservar a Praça dos Três Poderes e os edifícios monumentais ao redor.

Para João Batista, recuperar projetos como esse significaria preencher uma lacuna deixada na própria concepção monumental da capital. “Nós achamos que é o coroamento do Plano Piloto, que está há 60 anos sem completar”, afirma. Segundo o superintendente, desenhos e estudos preliminares podem servir de ponto de partida caso haja interesse do poder público e recursos para transformar as propostas em projetos executáveis. Por enquanto, nenhuma dessas ideias está em execução. O instituto tem material, manifesta interesse e busca articulações.
Um museu para reunir o mundo de Niemeyer
Se parte do projeto pretende tirar ideias antigas do papel, outra aposta olha diretamente para o futuro. O ISON quer criar em Brasília um museu virtual dedicado à produção de Oscar Niemeyer, capaz de reunir em um único espaço experiências sobre obras espalhadas pelo Brasil e pelo mundo.

A proposta prevê visualização em três dimensões, ferramentas interativas e um auditório. O projeto, segundo o instituto, já foi desenvolvido com participação de uma empresa holandesa. A ideia é que um estudante, pesquisador ou turista possa chegar a Brasília e compreender ali uma produção arquitetônica muito maior do que o conjunto existente na capital.
O equipamento também seria uma aposta no turismo. Em vez de conhecer Niemeyer apenas pelas fotografias diante da Catedral ou do Congresso, o visitante teria um espaço para entender sua trajetória, seu processo criativo e obras construídas em outros lugares.
A proposta já chegou a ser apresentada anteriormente, inclusive, segundo o instituto, dentro de um modelo que dispensaria investimento direto do governo para implantação e operação. Não avançou. Agora, com a tentativa de ampliar a presença do ISON em Brasília, a entidade pretende colocá-la novamente na mesa.
Preservar também é olhar de cima
Há ainda um problema que parece pequeno perto da monumentalidade dos palácios, mas revela como o tempo mudou a maneira de enxergar Brasília: hoje, a cidade também é vista de cima.
Quando Niemeyer projetou os edifícios da Praça dos Três Poderes, tomadas aéreas eram limitadas. Décadas depois, drones, transmissões de televisão e vídeos feitos do alto transformaram coberturas e estruturas técnicas, antes quase invisíveis, em parte da imagem cotidiana da capital.
O ISON defende que essas coberturas sejam estudadas sob o ponto de vista estético, respeitando as exigências impostas pelo tombamento. Na avaliação da entidade, alguns telhados interferem na leitura dos monumentos quando vistos de cima. O tema, segundo João Batista, já foi levado ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
Para o instituto, não se trata de um preciosismo. Forma, luz, percurso e perspectiva eram partes da experiência criada por Niemeyer.

A Catedral é um exemplo citado na conversa. O percurso original conduzia o visitante pela entrada subterrânea e por um trecho escuro antes da chegada ao interior iluminado. O contraste fazia parte da obra: depois da escuridão, vinham a luz, os vitrais e os anjos suspensos. Para os integrantes do ISON, mudanças aparentemente pequenas podem alterar justamente a sensação que a arquitetura pretendia provocar.
De volta à cidade que virou símbolo
Trazer o instituto para mais perto de Brasília, portanto, tem dois sentidos. De um lado está a capital monumental de Niemeyer, com edifícios mundialmente conhecidos, projetos não executados e um patrimônio que exige preservação constante. Do outro está uma cidade viva, que cresceu muito além do desenho original e enfrenta questões urbanas e sociais que não podem ser resolvidas apenas olhando para o passado.
Para aproximar essas duas Brasílias, João Batista repete uma palavra: parceria. A Universidade de Brasília aparece entre os possíveis interlocutores pela capacidade técnica e pela relação histórica de Niemeyer com a instituição e com Darcy Ribeiro. Governo federal, GDF, Iphan e os órgãos responsáveis pelos edifícios monumentais também são apontados como indispensáveis para qualquer proposta sair do campo das ideias.
O próprio ISON pretende diminuir a distância física. A entidade analisa locais para ampliar sua presença em Brasília, na expectativa de que estar na capital facilite conversas que hoje podem se perder entre estudos, propostas e decisões administrativas.
A aproximação parece natural para uma instituição que leva um nome indissociável da cidade. Niemeyer morreu em 2012, aos 104 anos, mas suas curvas continuam espalhadas por palácios, colunas, cúpulas e vãos que desafiam a aparência pesada do concreto.
Algumas de suas ideias, porém, continuam exatamente onde começaram: sobre o papel.


