Entre o 7 a 1 e o sonho do hexa: Geração Z só viu Copas com eliminações do Brasil

Luca Valente tinha cinco anos quando chorou diante da TV no 7 a 1 da Alemanha sobre o Brasil. Bel tinha oito quando se apaixonou pelo futebol na mesma Copa de 2014, mas terminou o torneio sem coragem de assistir ao fim da goleada. Esmeralda nasceu quando o penta já era passado. Para eles, a seleção brasileira nunca foi campeã, mas apenas promessa e frustração.

Na estreia do Brasil na Copa do Mundo 2026, jovens que cresceram ouvindo histórias sobre 2002 contam como é torcer para o “País do futebol”, mas que traz o último título mundial como uma lembrança emprestada dos mais velhos.

Bel Kotscho não tinha nascido na última taça brasileira. Hoje, aos 20 anos, ela está no terceiro semestre de Sports Media, curso de comunicação e esporte na Rider University, nos Estados Unidos. A atacante que gosta de atuar pelas beiradas na universidade também comenta partidas no podcast Dibrano. Respira futebol desde pequenininha, quando mandava mensagens adocicadas sobre o São Paulo para o avô. Mesmo assim, nunca viu a seleção campeã. “O pentacampeonato parece algo real, mas distante”, resume.

A primeira lembrança dela com uma Copa é justamente a de 2014. O problema é que o torneio que despertou essa paixão também deixou uma cicatriz que não é só dela. Bel lembra que desistiu de assistir ao jogo contra a Alemanha antes do apito final – o primeiro tempo havia terminado 5 a 0.

“Lembro perfeitamente quando eu estava assistindo ao jogo na casa da minha avó. Estava 2 a 0, fui buscar uma água e quando voltei já estava 5 a 0″, completa Eduardo Barone, aluno do Ensino Médio no Colégio Porto Seguro e que se prepara para o vestibular na Alemanha.

De lá para cá, a geração dos dois coleciona eliminações. Ainda assim, a esperança sobrevive. A ausência de conquistas não produziu necessariamente distanciamento do futebol, talvez tenha produzido uma relação diferente com a seleção. E há esperança de que agora vai.

A publicitária Maria Clara Almeida, de 26 anos, resume esse sentimento mesmo sem acompanhar o futebol regularmente. Mas, quando chega a Copa, algo muda. “Eu queria muito viver esse frenesi coletivo. Não falo nem de ver o Brasil ganhar. Queria sentir o que é aquele êxtase coletivo”, diz a profissional do Cursinho Bernoulli.

Bel tem uma teoria. O Brasil foi campeão em 1970 e voltou a conquistar o título 24 anos depois, em 1994. O penta veio em 2002. Agora, em 2026, passaram-se 24 anos novamente. Está na hora de ganhar, segundos seus cálculos. “Sei que é superstição, mas gosto de acreditar que pode ser um sinal”.

Trauma compartilhado de uma geração

Para Esmeralda Barros Schiesari, de 16 anos, do Colégio Magno, o penta existe numa espécie de zona intermediária entre a história e a imaginação. Ela não viveu a vitória em si, mas conhece os relatos, os vídeos, vê retrospectivas. “Conheço a história, mas ela chega de forma muito superficial. Para a minha geração, tem um pouco dessa sensação de lenda.”

Para o psicanalista Christian Dunker, o jejum coincide com uma transformação da própria identidade brasileira. Em 2002, diz ele, o futebol ocupava um lugar central na maneira como o País se enxergava. Hoje, a relação é mais complexa.

A nova geração acompanha a Premier League, a Champions League, com uma relação mais globalizada com o esporte. Ao mesmo tempo, símbolos antes consensuais, como a camisa da seleção, possuem outros significados. “O futebol continua importante, mas já não exerce exatamente a mesma função de unificar o País que exercia no início dos anos 2000″, diz.

O sociólogo Rogério Baptistini, professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie, adota raciocínio semelhante.

“A ideia de uma população que se manifestava de forma alegre no Carnaval e inventiva no futebol, capaz de enfrentar e vencer adversidades, e conviver com as diferenças, foi pouco a pouco se perdendo”.

Nem os jogadores viveram isso

O jejum é tão longo que já alcançou boa parte dos atletas profissionais. O ala Luís Henrique, da Inter de Milão, nasceu em dezembro de 2001. “Minha mãe sempre me conta histórias daquele momento”, afirma.

Nas categorias de base do Palmeiras, o meia Vitor Figueiredo dá um drible nas memórias ruins e guarda como principal lembrança a estreia do Brasil contra a Croácia em 2014. Já o atacante Carlinhos Jr., do Juventude, recorda a Copa em casa, cercado pela família. Memória afetiva.

Todos compartilham algo raro para jogadores brasileiros: foram criados dentro do futebol sem jamais testemunhar uma conquista mundial da seleção principal.

“Infelizmente não tive a oportunidade de presenciar esse momento. Mas acredito que isso possa acontecer em um futuro próximo com as novas gerações. E eu espero estar lá e vivenciar isso presencialmente, como atleta”, comenta Arthur, lateral-direito do Bayer Leverkusen e que já atuou pela seleção brasileira principal em 2023.

Meninas que cresceram sem o hexa

Se os meninos cresceram esperando o hexa, uma geração de meninas cresceu conquistando espaço no futebol numa luta paralela.

É o caso de Lorena Correa, atleta do sub-15 do projeto Meninas em Campo, iniciativa do Colégio Santa Cruz que usa o futebol feminino como ferramenta de educação e transformação social.

Desde sua criação, mais de 1.500 participantes passaram pelo projeto, que já encaminhou 43 atletas para clubes de alto rendimento, de acordo com a professora Adriana Tuono, coordenadora do projeto.

“Mais do que formar atletas profissionais, o Meninas em Campo busca ampliar horizontes e garantir que as meninas tenham condições de construir seus próprios projetos de vida dentro e fora do esporte”, diz a educadora.

A primeira Copa de Lorena nem foi masculina. Foi a Copa do Mundo Feminina de 2019. Ela lembra da tristeza pela eliminação nas oitavas de final, mas também da sensação inédita de acompanhar uma seleção com atenção. “Mais do que o título, o que me marcou foi a expectativa criada e a vontade de ver o Brasil voltar a ser campeão.”

Estadão Conteúdo

Compartilhe esse post :

Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Create a new perspective on life

Your Ads Here (365 x 270 area)
Últimas Notícias
Categories

Assine para receber notícias

Cadastre seu email e receba todos os dias as nossas notícias em primeira mão.

plugins premium WordPress