Os cinco indivíduos acusados pelo crime que chocou o Distrito Federal, há três anos, estão sendo julgados a partir desta segunda-feira. Os réus são apontados como autores do assassinato de 10 membros de uma mesma família. Os primeiros dois dias serão focados nos depoimentos das testemunhas do caso, que está sendo julgado no Tribunal do Júri de Planaltina. A audiência deve acontecer até esta sexta-feira.
Os acusados de cometer os diversos crimes que levaram à morte das dez pessoas são: Gideon Batista de Menezes, Horácio Carlos Ferreira Barbosa, Carlomam dos Santos Nogueira, Fabrício Silva Canhedo e Carlos Henrique Alves da Silva. Eles responderão por diversos crimes, entre eles: homicídio qualificado, latrocínio, ocultação de cadáver, extorsão mediante sequestro, associação criminosa qualificada e corrupção de menores.
As dez vítimas do crime são: Marcos Antônio Lopes de Oliveira (patriarca); Renata Juliene Belchior (esposa de Marcos); Gabriela Belchior de Oliveira (filha do casal); Thiago Gabriel Belchior de Oliveira (filho do casal); Elizamar da Silva (esposa de Thiago); Rafael, 6 anos, Rafaela, 6, e Gabriel, 7 (filhos de Thiago e Elizamar); Cláudia da Rocha Marques (ex-mulher de Marcos); e Ana Beatriz Marques de Oliveira (filha de Marcos e Cláudia).
Oitivas
A previsão é que, até esta terça-feira, um total de 23 testemunhas sejam ouvidas nas oitivas. No primeiro dia, seis pessoas deram depoimento.
O agente da Polícia Civil do DF, Tassio Correa Ferreira, foi o primeiro a prestar depoimento na segunda-feira. O policial participou das investigações do caso e, em sua fala, detalhou as motivações e a participação de cada um dos cinco indivíduos. detalhou que o planejamento do crime retrocede a outubro de 2022, quando o aluguel do cativeiro foi pago via PIX por Horácio — um dos réus.
O depoimento do agente policial afirmou que o grupo criminoso utilizou métodos de dissimulação para dominar as vítimas. Um dos acusados teria fingido que foi rendido junto a familiares no primeiro sequestro, em 27 de dezembro. Tudo para não chamar a atenção e facilitar o transporte até o cativeiro.
No depoimento ele também reforçou a dinâmica de hierarquia da associação criminosa. Segundo o agente policial, Gideon era tido no grupo como o líder e os demais acusados demonstravam um “senso de respeito” e subordinação a ele. Gideon foi apontado como o réu que mais omitiu informações durante os interrogatórios na delegacia.
Também deram depoimentos na sessão, os agentes que atuaram na captura dos réus. Um deles é o policial Raulison Lopes Rodrigues da Policia Civil do Goiás (PCGO), que participou da operação que culminou na prisão de Horácio. Já a terceira testemunha a ser ouvida foi outro agente da da PCGO, Ygór Silva de Almeida. Ele relatou a participação na prisão de Gideon, apontado como o mentor da chacina.
Manoel da Rocha Marques, avô de Ana Beatriz e pai de claudia, prestou um depoimento comovente. Com muita emoção, ele contou que soube da tragédia pela televisão. “A ausência delas me preocupou, mas a partir do segundo dia foi difícil saber o que estava acontecendo.” Desesperado, tentou entrar em contato com elas através do celular mas foi em vão. Ficou confuso com o que poderia estar acontecendo, mas persistiu na tentativa de contato. “Mas eu comecei a temer por algo muito difícil de aceitar…Elas foram sequestradas e executadas”, desabafou.
No depoimento, ele afirmou que mandava mensagens pelo telefone e nao tinha retorno. Aflito, fez o registro do desaparecimento da filha e da neta na delegacia. Manoel destacou que não suspeitou de ninguém pois não acreditava que alguém teria coragem de praticar o que ele considerou serem “atos tão monstruosos”. “Foi duro aceitar. Eu como pai e avô fiquei desnorteado”. Ainda quando elas estavam desaparecidas e ele não tinha noticias, Manoel foi até a residência onde elas moravam e a encontrou vazia e toda revirada.
Ainda sem entender como alguém é capaz de cometer esses crimes bárbaros com tanta crueldade, no depoimento Manoel afirmou que não conhecia os acusados. “Eu não conhecia, mas infelizmente eles foram apresentados. Fiquei com no na garganta. Como aquelas criaturas tiveram coragem de fazer o que fizeram?”, questionou.
Relembre o caso
O crime bárbaro aconteceu em janeiro de 2023, e a investigação começou após o desaparecimento da cabeleireira Elizamar Silva e de seus três filhos. A princípio, parecia tratar-se de um sumiço familiar, mas, após semanas de diligências da Polícia Civil (PCDF), o caso revelou-se o resultado de um plano motivado por ganância financeira, de acordo com o inquérito policial.
Dez pessoas da mesma família foram assassinadas em uma sequência de emboscadas. O grupo de criminosos mantinha as vítimas em um cativeiro em Planaltina, onde sofreram extorsão antes de serem executadas.
Espalhados por diferentes localidades entre o Distrito Federal e Goiás, os corpos foram encontrados, em sua maioria, carbonizados dentro de veículos. As investigações apontaram que os acusados eram pessoas próximas às vítimas e planejaram o extermínio para tomar posse do terreno e outros motivos financeiros.
A dor de quem fica
Acompanhando o primeiro dia de oitivas, Alzira Perdera, irmã de Cláudia Regina, conversou com a imprensa e manifestou sua indignação quanto à ausência de suporte institucional. A carioca questionou abertamente a falta de amparo por parte dos governos, tanto do DF, quanto do federal, criticando a inexistência de uma rede de assistência social ou psicológica que acolhesse os familiares das dez vítimas após a tragédia. Para ela, o descaso do poder público aprofunda o sentimento de abandono enfrentado por quem sobreviveu ao luto.
Com 93 anos, a mãe de Marcos Antônio Lopes de Oliveira, uma mestra artesã, contou ao JBr que não sente mais medo, porque tem resiliência e muita fé. Segundo ela, os policiais concluíram que ela seria a 11ª vítima da chacina. Mas com três anos passando e a dor so aumentando, ela considera que medo deu lugar a uma força urgente para viver. “Eu estou bem, mas tenho que fazer força para viver. Agora eu não quero que ninguém tenha pena de mim, eu quero que tenha respeito. A falta de respeito com o ser humano é uma doença pior que a Covid”, desabafou.
A professora Nubia Cristina Belchior, 54 anos, é irmã de Renata e está prevista para dar depoimento nas oitivas. Para a imprensa, Nubia contou que estar nesse júri traz uma sensação mais pesada do que a época dos crimes. “Porque na época dos assassinatos nós trabalhávamos nossa cabeça, nosso coração, pensávamos muito em possibilidades de não ter acontecido, de não ser verdade, procurávamos com esperança. E hoje nós chegamos aqui todos, né, com a certeza do que aconteceu.”
Ela acredita que o que está no processo é muito mais forte do que as coisas que têm sido divulgadas. “Porque são coisas assim, absurdas.” Ela está aflita com o fato de estar cara a cara com os acusados. “Mas estar na presença deles, no mesmo local que eles… O clima é muito pesado.” Para ela, também é ruim estar no mesmo local que os advogados de defesa. “Eles tentam defender o indefensável. Tentam às vezes colocar sua palavra em dúvida, o seu sentimento em dúvida. Então é uma sensação muito ruim. Mas eu, como uma boa brasileira que sou, acredito que a justiça será feita.”
Ela reforçou que Gideon é acusado de matar o próprio irmão e que todos eles são monstros. “Ele tem uma frase que foi dita para minha tia que eu não esqueço: ele falou que uma das melhores sensações da vida é o olhar de súplica de uma pessoa implorando pela vida na hora da morte.” Para ela, ele é um cara macabro. Essa tia em questão faleceu por depressão devido aos acontecimentos. Um de seus irmãos desenvolveu até a síndrome do coração partido. Hoje ele tem só 20% do coração funcionando e só pode tomar 700 ml de água por dia devido a todo esse sofrimento. “Eles mataram dez pessoas, mas a minha família depois, por depressão… No dia do sepultamento da minha irmã, a madrinha dela teve um derrame e dois dias depois nós a sepultamos. Então, ao todo, nós sepultamos 13 pessoas.”

