Por Caroline Purificação
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A mudança de comportamento pode ser algo decisivo para a prevenção da diabetes. E é com essa proposta que pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB) estão em busca de voluntários para participar do programa Proven-dia. Com cerca de 50 vagas, o projeto acontece no Hospital Universitário de Brasília (HUB) e visa a prevenção da diabetes tipo 2 voltada para as pessoas pré-diabéticas. O estudo irá acompanhar os voluntários com exames periódicos e gratuitos, além do suporte contínuo, ao longo de três anos.
A pesquisa faz parte Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (PROADI-SUS), patrocinado pelo Ministério da Saúde e idealizado pela Beneficência Portuguesa de São Paulo. Além do HUB, o projeto acontece em 28 outros centros pelo Brasil. Os voluntários serão alocados em três grupos diferentes: o PROVEN, o TELE PROVEN e o Controle. A escolha do grupo ocorre por meio de um sorteio e a pessoa inscrita poderá ficar em qualquer um dos grupos citados.
O primeiro grupo terá um acompanhamento mais intenso e presencial, o segundo será um atendimento remoto diretamente com a equipe da Beneficiência Portuguesa, e o último grupo contará apenas com um controle. No entanto, todos os pacientes farão os exames necessários dentro do HUB, em Brasília. A coordenadora do Proven-dia, Kênia Baiocchi, comentou ao Jornal de Brasília que a divisão dos grupos é fundamental para ter uma intervenção de forma eficiente, ao analisar todos os acompanhamentos.

A coordenadora explica que o estudo multicêntrico e cada centro acompanhará cerca de 50 participantes ao longo desses três anos. O foco é avaliar se mudanças no estilo de vida, como alimentação saudável, prática de atividades física e o manejo de estresse, conseguem evitar que pessoas com pré-diabetes desenvolvam a doença.
“O projeto começou a ser planejado há cerca de três anos, a partir de um edital do PROADI-SUS, e a coleta de dados teve início no ano passado. E o nosso principal desfecho é justamente verificar se essas intervenções conseguem impedir a progressão da doença”, afirmou.
Além do impacto individual, a pesquisa pode contribuir para o fortalecimento das políticas públicas de saúde. “As ações desenvolvidas ao longo do estudo são de baixo custo e viáveis na atenção primária. A ideia é gerar evidências para que esse tipo de protocolo possa ser incorporado às políticas públicas do SUS”, conclui a coordenadora.
Saiba como participar
Para participar do estudo, é necessário preencher os seguintes requisitos: ser maior de 18 anos, possuir um dispositivo com conexão à internet, residir até 1h de distância do HUB, possuir o resultado do exame de hemoglobina glicada entre entre 5,7% e 6,4%, estar em sobrepeso ou obesidade e não estar em acompanhamento individual de alimentação ou exercícios físicos nos últimos seis meses.
Não poderão participar as pessoas que apresentem características como: diagnóstico de diabetes; uso de remédio ou insulina para diminuir a glicose; doença renal; asma ou doença pulmonar obstrutiva crônica; cirurgia no estômago, intestino ou fígado; registro de infarto, angina (dor no peito) ou AVC (derrame).
Atualmente, o projeto ainda está em fase de captação de participantes. O acompanhamento inclui consultas individuais ou em grupo, exames periódicos e definição de metas personalizadas. “As metas são construídas junto com o participante. Não é algo imposto, mas um processo de diálogo e aconselhamento contínuo”, ressalta a coordenadora.
Ela alerta ainda que a participação é voluntária e não há remuneração financeira, mas é oferecida uma ajuda de custo. Já o benefício para os envolvidos é a possibilidade de poder realizar o acompanhamento da doença e a realização de exames, que muitas vezes são de difícil acesso na rede pública. Os interessados podem entrar em contato pelo pelo WhatsApp (61) 99841-5423 ou por meio do Instagram do projeto (@proven.unb).
Eliene Maciel, de 51 anos, é pré-diabética e começou a fazer o acompanhamento da doença com o Proven-dia, no HUB. A mulher relata ao Jornal de Brasília que descobriu a doença em um exame de rotina em que a glicose em jejum estava muito alta. “Quando vi que a hemoglobina glicada estava em 6,4, senti um alerta forte e a necessidade de cuidar melhor da minha saúde”, comenta.
Ela conta que decidiu se inscrever após conhecer o estudo por meio da televisão e a motivação veio com a possibilidade de mudar o estilo de vida, além de evitar a dependência de medicação. Desde que entrou no programa, passou a adotar hábitos mais saudáveis. “Hoje consigo acompanhar melhor minha alimentação e fazer ajustes aos poucos. Também comecei a incluir atividade física na rotina para sair do sedentarismo”, comentou.
Para a voluntária, o acompanhamento da equipe de saúde é um dos principais diferenciais do projeto. Ela afirma que não se sente sozinha no processo e conta com a orientação e apoio da equipe. “O pré-diabetes ainda é tempo de cuidar. O projeto mostra que é possível mudar hábitos e se cuidar enquanto ainda há tempo”, finaliza ela.
A rotina com a doença
O estudante de Jornalismo da UnB, Astra Oliver, foi diagnosticado com diabetes tipo 2 em 2025, mas relatou que sempre conviveu com fatores de risco ligados à alimentação e à saúde mental. O diagnóstico da doença veio após mudanças no estilo de vida, como ganho de peso, aumento do sonico de refrigerantes e a redução das atividades físicas, todos associados a crises depressivas. “Desde a adolescência, eu tinha episódios de compulsão alimentar em momentos de ansiedade e depressão, o que se agravou durante a pandemia”, relata.
A doença exigiu que Astra mudasse os hábitos de vida, principalmente a rotina alimentar. Levar marmitas de casa, evitar o consumo de besteiras e alimentos industrializados, foram as principais medidas tomadas pelo estudante. E os resultados já começaram a aparecer nos exames: “No meu último exame, a glicemia ficou abaixo dos índices de referência para diabetes e próxima da normalidade”, comemora. Apesar disso, ela reconhece que ainda enfrenta dificuldades para adotar uma rotina de exercícios físicos, principalmente por questões emocionais.
Ao avaliar iniciativas de prevenção como o Proven-dia, o estudante considera a proposta um avanço na saúde pública. Para quem está em fase de pré-diabetes, ele reforça que a mudança exige tempo, acompanhamento e apoio contínuo. “As doenças crônicas não surgem do nada, elas são construídas a partir dos hábitos e do ambiente em que a pessoa vive. É importante deixar de culpar o paciente e passar a olhar a doença de forma multifatorial, inclusive social e emocional”, afirma.
Diabetes tipo 2 é reversível
Estimativas do Ministério da Saúde indicaram que 12% da população do Distrito Federal convive diariamente com a diabetes, o número representa cerca de 200 mil pessoas. No entanto, parte desse grupo pode não ter sido identificada, especialmente os casos do tipo 2, que apresentam sintomas mais sutis.
Isabela Carballal, endocrinologista do Hospital de Brasília Águas Claras (Rede Américas), explicou ao Jornal de Brasília as diferenças entre as diabetes tipo 1 e 2. A primeira é uma doença autoimune em que o próprio organismo destrói as células do pâncreas responsáveis pela produção de insulina. Esse tipo costuma surgir na infância ou adolescência e exige o uso de insulina desde o diagnóstico.
Já o diabetes tipo 2 está relacionado principalmente à resistência do organismo à insulina e à redução progressiva de sua produção. Afeta principalmente adultos e tem forte associação com hábitos de vida pouco saudáveis, como alimentação inadequada, sedentarismo e excesso de peso. Diferentemente do tipo 1, o diabetes tipo 2 pode, em muitos casos, ser prevenido ou ter seu desenvolvimento retardado.
“O pré-diabetes ocorre quando a glicemia está acima do normal, mas ainda não atinge os valores de diabetes. Ele se desenvolve, em geral, a partir da combinação de fatores como excesso de peso, sedentarismo, alimentação inadequada e predisposição genética. Na maioria das vezes, o pré-diabetes não causa sintomas”, explica a especialista.
Sem intervenção, estima-se que entre 5% e 10% das pessoas com pré-diabetes evoluam para diabetes tipo 2 a cada ano, segundo Isabela. No entanto, essa condição é considerada reversível. Mudanças consistentes no estilo de vida, como perda de peso, prática regular de atividade física, alimentação equilibrada, sono adequado, redução do consumo de álcool e a interrupção do tabagismo, podem reduzir o risco de progressão em mais de 50%.
Para a médica, o acompanhamento contínuo em saúde é um fator decisivo nesse processo, pois permite ajustes individualizados, identificação precoce de alterações e maior adesão às mudanças necessárias, enquanto orientações isoladas tendem a ter impacto limitado a longo prazo.



